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Prelúdio 03 - Jairo Gerbase
 

Semantofilia

 

Há similaridade ou contiguidade entre os significantes do poema de Leminsky, ferve água, frita ovo, pinga pia. São esses dois aspectos da linguagem de que um usuário da língua lança mão para fazer um poema.

O mesmo pode-se dizer do chiste que, enquanto formação do inconsciente, é feito de significantes, como se pode notar em legado-delegado.

 

Também se pode dizer o mesmo do ato falho. Alguém queria dizer que um parente próximo adoeceu de Alzheimer, mas errou e disse que adoeceu de Aids. É facilmente notável que houve aí uma troca de palavras, uma palavra por outra, um significante por outro.

 

O sonho igualmente é feito de palavras, mesmo que seja pictórico, interessa nele o fato de que é uma formação de significantes. Alguém sonhou que teve cinco filhas que eram tão pequeninas que cabiam dentro de um envelope de cartas. Eram filhas-cartas.

 

Porém, a tarefa inquietante consiste em demonstrar que isso também acontece com o sintoma, que a angústia é um trocadilho de significantes, que a tristeza é um jogo de palavras, que a alucinação é uma estrutura sintática.

 

Alguém me disse que tem medo de entrar sozinha no elevador, que talvez isso se deva a uma praga de mãe: “atrevida desse jeito, você vai acabar sozinha”. De fato, aos sessenta anos, ela é uma pessoa só, sem parceiro, sem filhos, segregada e com medo. O medo de elevador traduz a frase “não posso ficar sozinha”, do mesmo modo que a neuralgia do trigêmeo de Cecília traduz a frase “foi como uma bofetada no rosto”.

 

Aristóteles disse que falamos para significar, mas não é isso que acontece quando fazemos um chiste. E me impressiona que se possa provocar no corpo do outro o afeto do riso com um jogo de palavras.

 

O chiste joga com a homonímia, como em alegria-alergia, e afeta o corpo. É  propriedade de um significante afetar um corpo, mas Aristóteles não quer que seja assim, ele quer que o significante apenas signifique, ele quer demonstrar o princípio da não contradição por meio de uma série de equivalências tomadas como evidências, ou seja, que falar é dizer algo, dizer algo é significar algo, significar algo é significar algo que tenha um sentido, e só um, o mesmo para si e para o outro, enquanto que um sofista, tal como Górgias, diz que há significado nas palavras, mas há também outra coisa, que é o significante. O significante produz efeitos sobre o corpo que são afetos.

 

Freud conseguiu indicar, em cada caso, o significante que afetava o corpo, o significante-sintoma. Hoje, torna-se mais difícil demonstrar que a angústia, a tristeza e a alucinação são afetos provocados pelo significante.

 

Reuni esses três afetos porque são ao mesmo tempo sintomas, estão situados como em uma superfície unilátera, são afetos-sintomas ou são sintomas-afetos. Eles comparecem quando falta um significante para nomeá-los. Assim é a teoria da angústia, que diz que a presença do objeto, que é o mesmo que dizer a presença do real, que é o mesmo que dizer a presença do inefável provoca a angústia. Por outro lado, a falta do objeto, a perda do objeto provoca a tristeza. A presença do objeto inefável provoca a angústia, o que hoje se denomina ansiedade. A ausência do objeto indizível provoca a tristeza, o que hoje se denomina depressão. A perda real do objeto suscita a perda do objeto real. Faz o objeto a comparecer como o verdadeiro objeto perdido. E esse objeto, quando está radicalmente perdido, foracluído, aparece desde fora como uma voz, o que se denomina alucinação.

 

Por isso reuni os três efeitos da impotência do significante (S1) de dizer ou da impossibilidade do objeto (a) de se deixar dizer, a angústia, a tristeza e a alucinação. Eles podem ser reunidos a partir dessa lógica. Eles são sintomas. O que queria mostrar é que eles são trocadilhos como o chiste. O que é notável na alucinação: “Porca. Eu venho do açougueiro”. Há, nessa estrutura sintática, prótase e apódose, como no exemplo: “Cocorocó. Galinha do Pelô”, ou emAugenverdreher, meus olhos estão tortos, quer dizer, fui enganada. É mais fácil notar na alucinação que o sintoma é feito de significantes.

 

Quisera poder fazer observar que o mesmo acontece na angústia, na tristeza, na iteração de uma frase como don’t let me down, que denominamos obsessão, etc.

 

Um problema crucial da psicanálise na atualidade é, quero crer, a resistência em praticar essa logologia, e, ao contrário, nossa preferência por umasemantologia, nossa amizade ao sentido, nossa semantofilia[1].

 

Lacan propôs que retornássemos aos textos canônicos de Freud. Em Freud, o sentido do sintoma se situa no complexo paterno. As cinco grandes análises indicam isso. Klein faz o giro teórico para o cuidado da mãe, para a “falta básica” que deve ser preenchida pelo “primary love”. A falta do amorprimário é o motivo de todos os problemas morais. Um dos seus alunos deduz que a mãe deve ser suficientemente boa.

 

Quando Lacan entra em cena com Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, lança seu aforisma “O inconsciente é estruturado como umalinguagem” e, dessa maneira, muda o paradigma da prática analítica. Daí porque penso que é perda de tempo analisar a relação do significante com seu referente, o significado. É preciso analisar a relação de um significante (S1) com um outro significante (S2), relação na qual o sujeito ($) é representado. Os exemplos dessa relação são inesgotáveis: maca cama, ferve água, pinga pia, Sigmund Signorelli, etc.

 

A questão é saber se, tal como podemos promover o afeto do riso por intermédio de um significante, podemos desfazer um sintoma através de um significante. Preciso do sentido do significante para desfazer o sintoma ou basta a nomeação do significante para diz-solver o sintoma.

 

Estamos habituados a pensar que o saber depende do sentido, mas o saber é um significante colocado na posição dois (S2), então, é o mesmo significante (S1) colocado em outra posição como o mesmo e o outro significante. O saber é um significante, mas estamos habituados a tratá-lo como um sentido.

 

Cassin[2] foi quem explicitou melhor para mim o conceito de decisão do sentido de Aristóteles. Falar é significar uma coisa unívoca para quem fala e para quem ouve. Querer dizer algo é, para Aristóteles, a condição para que um homem possa se dizer homem, isto é, um animal dotado de logos, o que os latinos traduzem por ratio razão e oratio discurso.

 

Ao contrário, para os antifilósofos ou sofistas há alguma coisa no falar, um logos que não depende do sentido das palavras, mas do som da voz e das palavras. Daí porque recomendam não falar para significar, mas falar pelo prazer de falar.

 

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[1] Cf. THAMER, E. Contra a semantofilia. Stylus 7, p.98-107, 2003.p.98.

 

[2] CASSIN, B. Jacques le Sophiste Lacan, logos et psychanalyse. Paris: Epel, 2012. p.121.