EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 04 - Glaucia Nagem
 

Forum - Cartel e Escola - Passe

 

O cartel e o passe são a base para a Escola proposta por Lacan. Um problema crucial para a psicanálise é, desde Freud, como formar um analista e Lacan se ocupou deste problema durante todo o seu ensino. “Me preocupo por saber se aqueles psicanalistas a quem ensinei algo transmitiram propriamente o que disse” afirma Lacan na aula do dia 2 de fevereiro de 1966. O que transmitem? De onde se transmite? Essas perguntas nos apontam para os dispositivos de Lacan.

 

Sabemos que para a base de sua Escola Lacan propõe dois dispositivos: o cartel e o passe. Seriam esses dispositivos uma tentativa de tratar o problema da formação dos analistas em sua Escola? A partir desse mínimo podemos articular as bases do que se construiu como a IF-EPFCL? Podemos pensar na vizinhança dos fóruns com os cartéis e da IF com o passe?

 

O infantil nos ensina a cada volta da psicanálise. Nele jogamos com coisas sérias. Quem não lembra do passa-anel e do telefone-sem-fio? No primeiro temos um jogo que faz circular um anel. No segundo uma pessoa diz no ouvido da outra uma frase. Esta segunda dirá para a seguinte o que ouviu e assim sucessivamente até que a última diga como a frase chegou até ela. Este jogo faz circular as palavras, seus equívocos e a tentativa de escutar o que foi dito e transmitir essa escuta.

 

Proponho que pensemos o cartel como tendo essa pegada do jogo do passa-anel. O cartel-passa-anel é esse dispositivo que faz circular o saber um a um. Dobradiça que movimenta, que não permite que se fixe, que se cristalize, pois ele d’escola. Afinal, sem dobradiça uma porta vira um muro.

Para o passe, pensemos o telefone-sem-fio. Nele o desejo do analista é posto a circular como voz, de um a um até que uma nomeação seja sacada. O Passe é uma aposta de Lacan para recolher em sua Escola o que é possível transmitir do desejo do analista em uma análise.

No momento da Cisão de 98 temos mais um passo de aposta: Ao invés de uma Escola com uma sede e uma direção, apostou-se numa Escola que se constitui de fóruns.

 

Fóruns-passa-anel. Proposta de um conjunto regulado por dois princípios básicos: a iniciativa e a solidariedade, reunindo-se de diversas formas. Parece que a ideia de montar uma estrutura onde os fóruns não são Escola, mas tem a sua Escola, segue a aposta lacaniana onde os dispositivos apontam sempre para o movimento e para o furo. IF-EPFCL, esse é o nome que demos para esse conjunto que se supõe furado e que aposta na orientação pela Escola.

 

Na carta de Princípios, os Fóruns, como os cartéis, são a dobradiça para movimentar os laços da psicanálise em seus três eixos: “a crítica, a articulação com os outros discursos e a polarização em direção a uma Escola de Psicanálise”. Porém, a mesma carta nos adverte que “Esses fóruns do Campo Lacaniano não são Escola, e não outorgam nenhuma garantia analítica”. Como pensar então a formação e a garantia?

Escola-telefone-sem-fio. Da Escola e de seus membros se espera: 1) sustentar “a experiência original” em que consista uma psicanálise e permitir a formação dos analistas; 2) outorgar a garantia dessa formação pelo dispositivo do passe e pela habilitação dos analistas “que deram suas provas”; 3) sustentar “a ética da psicanálise que é a práxis de sua teoria”. Ora, isso nos convoca a refletir que há uma responsabilidade nos passos dirigidos aos diferentes espaços de nossa organização. Topamos montar nossa estrutura sobre os princípios propostos por Lacan. Assim, temos passos importantes a serem dados e responsabilidades a serem assumidas. Da Escola, como do passe, esperamos que algo se transmita da psicanálise. Algo que sustente a formação e convoque as provas “de analista” em jogo na transmissão apoiada na ética que nos orienta.

 

Estamos no mundo. Esperamos que os fóruns cumpram sua função de movimentar a crítica, a articulação com os outros discursos e a polarização em direção a uma Escola. Esperamos que da Escola seus membros sigam a responsabilidade ética da transmissão da psicanálise em sua dimensão de formação contínua e que deem a prova, a cada vez em que a transmissão esteja em jogo.

 

E os tais problemas cruciais para a psicanálise na atualidade? Afinal, o que está na berlinda a cada vez é a formação dos psicanalistas. A cada vez a aposta de que os fóruns sigam articulando e movimentando sua Escola e que a Escola siga seu compromisso ético da transmissão. Ainda hoje, só esse compromisso ético na formação dos analistas pode tratar os problemas cruciais para a psicanálise.

 

Glaucia Nagem - psicanalista membro da IF-EPFCL - FCL- São Paulo