EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

No dia 15 de setembro de 2018, antes do primeiro turno das eleições fui convidado em Barcelona no Encontro Internacional da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano, como representante do Brasil, ao lado de Rodrigo Pacheco, a responder a questão: “O que nós podemos dizer, legitimamente, em nome da psicanálise, no Campo Lacaniano (como campo do gozo estruturado pelos laços sociais)? A atualidade comporta, para cada um, muitas ocasiões para tomar partido sobre a política social, econômica e cultural, mas sobre quais temas precisos nós temos que nos pronunciar, enquanto IF-EPFCL, para cumprir os objetivos fixados há vinte anos em nossa Carta? Esta questão precede a de saber “como se fazer escutar?”, é uma questão sobre nossa orientação enquanto Campo Lacaniano.”

Há uma questão preliminar à extraterritorialidade da nossa comunidade de Escola: será que esse debate ocorre entre nós psicanalistas? A Escola acolhe e debate as questões sociais, culturais e políticas que ocorrem nas sociedades em que se encontra? A Escola não deve ser um gueto protegido dos mal-estares sociais. Se Lacan falou da Escola como refúgio contra o mal-estar na civilização isso não significa que os analistas se tranquem como pérolas em uma concha-escola e que esta seja um sindicato de proteção de sua categoria profissional. O analista não é um refugiado. A Escola e os Fóruns devem ser um lugar para se elaborar o discurso analista cujo saber sustenta o ato analítico não só nas análises, mas também na relação da Escola com a Polis. Vinte anos depois será que cada Fórum do Campo Lacaniano cumpre sua proposta de trazer os outros discursos que circulam no campo de gozo da Polis para suas discussões? Estendemos nosso princípios de iniciativa e solidariedade à sociedade? A Escola é o lugar dos analistas afiarem suas armas diante dos impasses da civilização, e não as deporem e cruzarem os braços, como alertou Lacan. Essas armas são: o Ato e a Interpretação. A palavra que faz ato do analista é um dizer que funda um fato e fura a consistência do Outro.

Não é por ser orientado pela estrutura que o analista deve desprezar a conjuntura da Pólis, ou seja, a Cidade dos discursos como laços sociais em que vive. Não é por saber que há racismo estrutural dos discursos e o ódio ao Gozo Outro que o analista deve ser condescendente com os discursos e atos racistas em relação às classes, às cores e à sexualidade dos semelhantes. A segregação estrutural tem por fundamento a estrangeiridade do objeto a condensador de gozo que o sujeito tende a localizar em determinados outros como causa de desejo, mas também como causa de horror e de abjeção – daí a tendência a segregar e no extremo eliminar. Não é por saber dessa estrutura que o analista deve ser tolerante com discursos e  e políticas segregacionistas. E sim promover a escuta e também falas e atos de repúdio ao ódio à Heteridade.

Ao responder a Einstein porque a guerra, Freud expôs a teoria da pulsão de morte vinculada a Eros mostrando que é no semelhante que a pulsão de destruição encontra seu alvo e assim o sujeito pode (cito Freud) “humilhá-lo, estuprá-lo, torturá-lo e matá-lo”. A guerra é o momento de suspensão das rédeas à pulsão de morte, é uma orgia de gozo. Nem por isso o analista deve ser tolerante com a banalidade do mal que faz de um homem um assassino ordinário, como mostrou Anna Harendt. A estrutura explica, mas não justifica a conjuntura.

O cinismo do analista e a falta de ética pode ir tão longe a ponto de participar de tortura durante a ditadura brasileira, como no caso de Amílcar Lobo psicanalista da IPA cujo codinome era Dr. Cordeiro, com a complacência e o silêncio da cúpula internacional de dirigentes.

O cinismo não é uma virtude do analista. A virtude é o bem-dizer que deve guiar sua ética. E o dever é interpretar o mal-estar do sujeito e também da civilização, a exemplo de Freud e de Lacan. E isto para que a psicanálise possa contribuir para as subjetividades de sua época. ( Hoje eu acrescentaria fazer valer a ética da heteridade e a lógica do não-todo fálico).

Na “Proposição” de 67 Lacan situa três facticidades onde se atam psicanálise em intensão e extensão, ou seja, o divã com a Pólis, articulando a política da Escola com a sua extrateritorialidade. Trata-se de três linhas de frente, três fronts nos as quais A Escola deve se colocar com suas armas conceituais.  No simbólico: O Édipo versus o “valor da família pequeno-burguesa” (Outros Escritos, p.262). Por exemplo, houve Escolas que se pronunciaram publicamente favoráveis aos projetos de lei na Europa sobre o casamento para todos (que incluía gays e lésbicas) e a homoparentalidade. Não foi o caso da nossa Escola que, no entanto, colocou nossa posição sobre a questão em seu site na internet. Não seria uma ocasião para a Escola se pronunciar frente às posições contrárias que defendiam os valores da família? 

No imaginário: A Escola versus a UNIDADE, ao grupo e à estrutura da psicologia das massas. Foi contra isso que muitos de nós lutamos na AMP há 20 anos e partimos para uma estrutura em rede, sem sede, sem Um, para constituir uma multiplicidade de Fóruns organizados em uma federação sem hierarquia de poder mas não sem a orientação de uma Escola. A Internacional dos Fóruns se propõe em rede reunindo em fóruns os “dispersos disparatados” que se reúnem em cartéis da Escola e em redes, núcleos e seminários de pesquisa em psicanálise nos múltiplos e variados Fóruns no mundo. Mas o perigo persiste, pois é a própria posição do analista que “por ter aversão ao semblante, diz Lacan,  se escora no grupo” (“Aturdido”, Outros Escritos, p. 476). Disso retorna a fabricação ou o fantasma do Um e a submissão ao conforto do grupo que dão origem à formação de guetos e guerrilhas, cisões e facções onde se inflama o narcisismo das pequenas diferenças. Esse é o mecanismo do todo-falicismo que fabrica o Um e o grupo. Assim, longe de ser o lugar de reconhecimento e a aceitação da diferença do outro enquanto Héteros, a Escola corre o risco de ser uma galeria de espelhos de uma Corte de papel onde os ódios são tantos maiores quanto mais semelhança houver entre os grupos. Daí a importância da Escola para orientar o trabalho para além dos grupos que se constituem laços imaginários. A relação com o exterior neste ponto não pode ser a Escola como semblante de partido político e tampouco um asilo de analistas cansados da guerra. Como tratar a extraterritorialidade sem enfrentar no seu cerne a facticidade dos Uns e a lógica partidária? Neste registro a Escola deve estar atenta a todas as formas de totalitarismo do Um que se insinua também na sociedade e nas estruturas mais democráticas.

No real: o campo da concentração e a lógica do extermínio. No momento da proposição de Lacan de 67, estavam ainda sendo descoberto o que de fato acontecera nos campos de concentração nazistas. No Brasil se instalava uma ditadura militar que reproduzira nos porões das prisões essa mesma lógica, indo do encarceramento ao extermínio com tortura e crueldade para com os discordantes ao totalitarismo ditatorial.

O campo de concentração nazista, que Lacan diz ter visto “surgir com horror” não deve deixar de continuar a nos horrorizar. Há o desejo do analista e também “o horror do analista”. Assim como devemos ter mais vergonha, como nos diz Lacan, deveríamos ter mais horror diante de adventos do real que conduzem à eliminação do outro: o homo sacer de Agamben, o “homem matável”. No registro do real Lacan associa a segregação ao mercado e ao discurso da ciência. O mercado, como se fosse um ente monstruoso com vida própria, que reflete a “saúde” das empresas,  é um Frankstein: filho “legitimo” da ciência com o discurso capitalista. Este discurso não se opõe ao socialismo e sim a todos os outros discursos. O capital corrompe o laço social.

A ideologia neoliberal mercadológica domina a subjetividade de nossa época e faz a indústria farmacêutica comandar toda a psiquiatria a ponto de reduzi-la a uma neurologia de fake news e transforma os médicos em garotos propaganda de laboratórios farmacêuticos. Isso interfere diretamente no desejo de psicanálise. É a mesma ideologia que promove o desmonte dos serviços públicos de saúde no Brasil para favorecer os planos de saúde e os hospitais privados. Nossa Escola no Brasil se pronunciou publicamente contra isso. Rodrigo Pacheco falará em breve sobre esse e outros atos de nossa Escola no Brasil. É a mesma ideologia da medicalização da infância e do ataque ao debate sobre gênero e orientação sexual nas escolas secundárias.  O psicanalista não pode ser conivente com isso.

O golpe parlamentar de 2016 no Brasil abriu as portas do armário (hoje eu diria o bueiro do esgoto) do discurso fascista, que hoje assola o país sem o menor pudor. Esse discurso misógino, racista, homofóbico encontrou seu porta-voz num candidato da extrema direita a presidente da república, que prega o assassinato do outro em defesa própria e o porte de armas para a população civil. Esse é o discurso, cada vez mais banal que no meu país  sustenta as invasões militares nas favelas com execução de crianças envolvidas no tráfico de drogas, assim como a eliminação emblemática da Marielle, mulher negra, mãe, lésbica, originária de uma favela e vereadora mais votada no Rio. Seus assassinos até hoje não foram descobertos. Para piorar a situação, diante do ataque ao bem público pelo discurso das privatizações, surgem igrejas evangélicas milionárias que se substituem ao Estado vendendo a proteção de Deus a preço de ouro e preces. São as palavras, que sustentam os atos os atos segregativos e assassinos. Cabe ao discurso do analista ir contra esse discursos dominante com um bem dizer sobre os dizeres que ele pode inferir dos ditos e significantes mestres que circulam.

Hoje em 2018, há uma nova ordem mundial muito perigosa no comando da subjetividade desta época muito perigosa não só para a psicanálise, mas também para a própria humanidade. A psicanálise como avesso da civilização é fundamentalmente anti-racista, anti-segregativa, anti-religiosa, anti-bélica e anticapitalista. Sua orientação é a política do sinthoma, ou seja a forma como cada um goza do Inconsciente, coma condição sine qua non da preservação da vida no laço com o outro. Eis o traçado das frentes de combate da Escola em sua extraterritorialidade. Um vasto programa.