EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elisabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio XII

O INCONSCIENTE, O CORPO E

A POLÍTICA DA PSICANÁLISE

Andréa Hortélio Fernandes

 

Lacan ao enunciar “o inconsciente é a política”[1] destaca, paralelamente, o tratamento dado ao real pela psicanálise. Pela fala das histéricas o real foi trazido ao setting analítico. As conversões histéricas não podiam ser referendadas pelo saber da medicina e atestaram a discordância entre inconsciente e corpo[2]. Elas revelaram a Freud que, mais além de um corpo simbólico recortado, manejado e classificado pelo saber médico, existia o inconsciente como o mistério do corpo falante. Pelo discurso da histérica, Lacan tentou formalizar um tratamento possível do gozo particular a cada falasser, ao colocar a verdade como não-toda, como o que impulsiona esse discurso. E, pelo discurso analítico, ressaltou que sua operância se sustenta do objeto a como semblante.


É da alíngua que o saber inconsciente se incorpora, e as marcas constituintes do sintoma, o qual guarda um sentido real particular a cada sujeito, podem se enlaçar ao real em jogo no mal-estar na civilização. O que enfatiza a máxima freudiana de que “o coletivo não é nada mais que o sujeito do individual”[3]. As artes e a tela do cinema, em particular, podem ser “o revelador mais sensível”[4] por permitir mostrar aquilo que é assunto intocável para cada um.


O filme “Mary Shelley – a vida que criou Frankenstein” é baseado no livro escrito entre 1916-1917, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Mary Shelley tem 19 anos, o saber da castração já floresce nela, e a primeira fala do filme o retrata: “Está em ebulição em minha alma algo que não consigo entender”. A teoria do galvanismo, apresentada no filme, permite ilustrar que o discurso do conhecimento é uma metáfora sexual, donde “se não há relação sexual também não há conhecimento”[5]. Daí surge a questão: seria o corpo monstruoso de Frankenstein uma metáfora do que é dado às mulheres, na relação dual com a criança, confrontar-se com o objeto mesmo da sua existência aparecendo no real?


Freud (1917) ao tratar do “desejo que encontra realização na obra criativa”[6] apresenta como força motriz a associação de uma experiência no presente a uma lembrança, geralmente da infância. Freud e Lacan ressaltaram, nos escritores, a produção de obras que, a partir da extrema singularidade de cada um, consegue extrair – da dor, do desamparo, da angústia – algo que faz laço social, verdadeiro fazer sublimatório no qual é feita alusão ao vazio da Coisa. No filme, Mary Shelley o fará seguindo a política do inconsciente, num trabalho em torno da elaboração de sonhos e pesadelos que dão corpo ao Frankenstein.

[1] LACAN, J. Seminário XIV : a lógica da fantasia: lição de 10 de maio de 1967. Inédito.

[2] LACAN, J. Seminário XXII: RSI: lição de 21 de janeiro de 1975. Inédito.

[3] LACAN, J. O tempo lógico. In: __. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 213.

[4] LACAN, J. Seminário VII : a transferência. Rio de Janeiro: Zahar, 1992. p. 21.

[5] LACAN, J. Je parle aux murs. Paris: Seuil, 2011. p. 66.

[6] FREUD, S Escritores criativos e devaneios [1917]. In: __. Edição standard brasileira das obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974.