XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio V

O LIMITE DO CORPO E SUAS ERRÂNCIAS

Lia Silveira

“Há uma rachadura em tudo.

É assim que a luz entra.”

Leonard Cohen
 

Se a fala é o que permite o deslizamento metonímico ad infinitum do significante, o corpo é o que coloca em jogo para o falasser a função do limite. É assim quando nos posicionamos na partilha dos sexos, quando lidamos com o envelhecimento, a morte e nos embates com o outro, seja ele o do amor ou o do ódio. Em todas essas experiências entra em jogo um impossível. Apesar disso, a história da humanidade é uma história das tentativas de desconhecer esse limite. Na lógica neurótica ele é um erro e, como tal, precisa ser eliminado.

 

Assim inventamos a religião, onde a falha vira o pecado, ou a ciência, que com suas inúmeras intervenções sobre o corpo, permite alargar seus limites à torto e à direito, ao preço de desconhecer o sujeito que aí habita. O casamento da ciência com o capitalismo leva a coisa às raias da loucura. Inventa-se o coaching, para quem é possível superar o erro, bastando esforçar-se: “Afinal, por que aqueles judeus que estavam lá no campo de concentração simplesmente se entregavam?", disse, recentemente, um deles. O discurso corrente avança cada vez mais no sentido do “bem sucedido”, esperando que isso corra sempre nos trilhos, sem espaço para o fracasso, o erro, a falha, a imperfeição. Os efeitos desse “não querer saber” já são bastante conhecidos também.

 

A psicanálise, por sua vez, se esboça na margem do que, desse discurso, se estatela sempre. No começo era o Pai. Com Freud, o limite do corpo é introduzido pelo Complexo de Édipo que faz a amarração entre o gozo incestuoso e o “não” do pai que interdita a mãe para a criança. Com Lacan, o “não” do pai (Le non du pére) vai, passe a passe, além do Édipo. Primeiro fazendo homofonia com os nomes do pai (Les noms du pére), apontando para a função nominativa desse lugar, e fazendo uma transição do Outro da tradição patriarcal para o Outro como produto de uma operação lógica. Depois, dez anos após sua “excomunhão” da IPA, onde foi impedido de ministrar exatamente a aula em que falaria dos “Nomes do Pai”, Lacan assume a sua “heresia” e, em mais um deslizamento pelo equívoco significante, apresenta seu seminário “Os não tolos erram” que em francês é homófono de “Os nomes do Pai” (Les non-dupes errent).

 

O que a lógica significante ensina nessa homofonia (e que Lacan soube ler!) é que, para poder efetivamente ir além do pai, é preciso abrir mão de buscar fora aquilo que venha a operar como limite. Ser suficientemente ateu é ser tolo da estrutura para poder sacar o que se inscreve do inconsciente, único saber de que efetivamente dispomos.

 

Assim, o discurso analítico é o único que não parte do principio da eliminação do erro. O sentido que se extrai dessa tolice, diz Lacan na lição de 20 de novembro de 1973,é muito curto. “Não se descobre que há 36 sentidos na dobradura final: trata-se de apenas um, o sentido sexual” [1]. Isto é, o sentido onde isso falha, isso falha sempre! Descobrir-se errante, portanto, é o mínimo que uma análise pode oferecer.

 

O desejo indestrutível caminha pelos desfiladeiros do significante. Por isso, se a escorregada não for mais que um deslizamento, não se constitui como ponto de referência. Mas se pudermos sacar da estrutura simbólica o ponto em que ela nos leva a repetir sempre o mesmo deslize, é possível extrair daí uma lógica. E é ela que pode vir a servir de bússola frente às errâncias da vida.

A palavra “errância” é etimologicamente marcada por uma ambiguidade, pois comporta tanto o sentido de cometer o erro quanto o de caminhar. É assim, pelo cristal da língua que “aquele que erra”, desdobra-se no “errante viajante”, cavaleiro de uma jornada cuja bússola é o que pôde extrair de sua própria experimentação com seu corpo, seu gozo e seu desejo singular.

Uma Escola digna da ética da psicanálise é aquela que, em sua política, consiga sustentar os meios necessários para a extração dessa experiência.


[1] LACAN, J. (1973-74). Les non-dupes errent – Seminário 21. Versão em português não oficial disponível em https://goo.gl/dp9EUL .

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