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XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio VIII

O CORPO E O FENÔMENO PSICOSSOMÁTICO

Marcella Laboissière

 

“Quero ser a cicatriz, risonha e corrosiva, marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva. E também pra me perpetuar em tua escrava, que você pega, esfrega, nega, mas não lava”[1]

Discutir a prática psicanalítica com sujeitos que apresentam fenômenos psicossomáticos (FPS)[2] nos remete, de maneira exemplar, ao hiato que se coloca entre o progresso do discurso da ciência e a relação do saber médico com o corpo, isto é, “a falha epistemossomática”. Lacan aponta na comunicação “O lugar da psicanálise na medicina”[3], de 1966, que um dos efeitos do progresso da ciência é o fato de cada vez mais aumentar a falha epistemossomática pela via da recusa do efeito sujeito - ou seja, da sua dimensão de gozo. Segundo Maria Anita Carneiro Ribeiro (2004)[4], a partir dessa indicação podemos, portanto, observar a proliferação de demandas de análise de sujeitos portadores de fenômenos psicossomáticos. Assim, diante da recusa do efeito sujeito pela ciência reside uma das contribuições e reflexões da psicanálise para os demais campos do saber: incluir o mal-estar que o gozo produz no corpo, “marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva, pra me perpetuar em tua escrava, que você pega, esfrega, nega, mas não lava”.


A clínica do fenômeno psicossomático marca o fio tenso entre dois campos do saber: a Psicanálise e a Medicina. Do lado da medicina, pacientes acometidos por estas manifestações não se encontram numa clínica específica, navegam por mares aventureiros e peregrinam por diversos setores de um serviço hospitalar - caso este dispositivo seja um mediador entre o sujeito que busca ajuda e o profissional. As chamadas doenças do sistema imunológico e reumatológico, ainda hoje, são tomadas como acontecimentos no corpo que não admitem pelo saber médico uma causa.


De nossa parte, do campo psicanalítico, é sabido que o conceito de FPS não é de origem freudiana, porém, é nas pegadas deixadas pelo criador da psicanálise que destacamos nosso alicerce teórico-clínico. Se o corpo da medicina é aquele compreendido por células, tecidos, músculos, órgãos e por uma anatomia que corresponde aos catálogos e manuais descritivos, para a psicanálise, o corpo é aquele da pulsão, atravessado pela linguagem e pelo significante. O significante, como sabemos, não marca o corpo de maneira igual para todos, pelo contrário, é no gozo do um-a-um dalalangue do ser falante que temos notícias e, no FPS, estamos diante da orientação do real enquanto traço, escrita hieroglífica. Apesar de estarmos na intersecção entre dois campos de pesquisa, em psicanálise, não admitimos o nivelamento, tampouco a correspondência de diagnósticos, ainda assim, mesmo que o FPS seja radicalmente distinto de uma formação conversiva, é pela via da escuta analítica que iremos apurá-lo.


A partir de Freud, verificamos que a pulsão é responsável por inaugurar um novo campo, diz do que é limítrofe entre o psíquico e o somático. Triebsignifica: movimentar-se para qualquer lugar, qualquer direção, mesmo que o efeito, que nunca será único, sequer satisfatório, ocorra pelo horror, como nos casos de FPS com a atuação da pulsão de morte pela via da letalidade. Com Lacan, é o conceito de gozo que assume esse lugar e recoloca os analistas no dever de assumir outro posicionamento daquele proposto pela divisão cartesiana res-pensante e res-extensa. Lacan nos indicou, no final do seu ensino, que a substância gozante (1972-1973)[5] seria a responsável por participar dessa novidade, afinal, é ela que está na encruzilhada das modalidades e paradoxos de gozo a partir da perspectiva do nó borromeano. Assim, partindo da única substância que a psicanálise admite para falar de corpo, da substância de gozo, caberia ainda mantermos o termo psicossomática?

[1] Letra da música ‘Tatuagem’ de Chico Buarque.

[2] FPS – sigla para designar o termo fenômeno psicossomático.

[3] LACAN, J. (1966). O lugar da psicanálise na medicina. In: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo, n. 32, Eolia, p. 8-14, 2001.

[4] CARNEIRO RIBEIRO, M. A. O traço que fere o corpo. In: CARNEIRO RIBEIRO, M. C.; ALBERTI, S. (Orgs.). Retorno do exílio – O corpo entre a psicanálise e a ciência. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004, p. 47-56.

[5] LACAN, J. (1972-1973) O Seminário, Livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2008.