XXI Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio X

2020: O QUE RESPONDE O PSICANALISTA DIANTE 

DA URGÊNCIA PANDÊMICA E POLÍTICA?

Maria Helena Martinho

 

 

Quando o título do nosso Encontro Nacional da EPFCL-Brasil – “O sintoma e o psicanalista: topologia, clínica e política” – foi proposto em 2019, ele já anunciava, de forma visionária, a importância de colocarmos em debate três termos – topologia, clínica e política – que convocavam o psicanalista a estar atento as posições sócio-políticas de sua época e como estas reverberam na clínica borromeanamente.

 

Em “O mal-estar na cultura” (1930), entre outras obras, Freud imprimiu uma marca política, ao refletir sobre a relação do homem com a cultura de sua época. Lacan verificou que o mal-estar na cultura é o mal-estar nos laços sociais[1], situou a política na configuração discursiva, produziu seus quatro discursos que fazem laço social e esclareceu que todo laço social é um enquadramento da pulsão e resulta em uma perda de gozo. Além de esclarecerem aspectos subjetivos existentes nos fenômenos sociais e políticos encontrados na sua época, tanto Freud como Lacan nos alertaram que o psicanalista deve se articular com o mundo. Em 1953, Lacan já havia nos advertido que o psicanalista deve renunciar ao exercício da psicanálise, se “não conseguir alcançar, em seu horizonte, a subjetividade de sua época”[2].

 

2020 entrou para a história da civilização como um ano avassalador em que um grande desastre universal, a COVID-19, promoveu um encontro trágico com o real, um mau encontro, uma distiquia, transformando a vida de nosso planeta.

 

Em 31 de dezembro de 2019, a China informou à Organização Mundial da Saúde - OMS sobre “pneumonia misteriosa” em Wuhan. Em 9 de janeiro de 2020, os chineses divulgaram o genoma do vírus: um coronavírus semelhante ao da SARS e da MERS. Em 11 de janeiro de 2020, a China registrou a primeira morte, em cerca de três meses seriam mais de 100.000 em todo mundo. Em 11 de fevereiro de 2020, a OMS definiu o nome oficial da infecção pelo coronavírus: COVID-19, CO de corona, VI de vírus, D de disease (doença em inglês) e 19 do ano em que surgiu. O vírus foi chamado de SARS-COV-2. Em 11 de março de 2020, a OMS declarou pandemia global. Em 12 de março de 2020, o Ministério da Saúde no Brasil regulamentou medidas de isolamento e quarentena.

 

A fragilidade humana, a perda, a efemeridade, a transitoriedade da vida estavam anunciadas. O mundo parou, o isolamento social se impôs, um enorme parêntese se abriu em nossas vidas, o mundo virou de pernas para o ar.

 

O cenário da pandemia global desvelou um impacto, um traumatismo mundial e este se articulou com o traumatismo singular de cada um, fazendo com que cada sujeito respondesse ao traumatismo global a partir de sua fantasia, seu sintoma e seu gozo.

 

A pandemia provocou um colapso no sistema de saúde, na estrutura econômica, política, social e educacional. Testemunhamos o furo no saber, no discurso da ciência, o fracasso do discurso do capitalista e do neoliberalismo. A COVID-19 promoveu um desnudamento narcísico no nosso planeta. Estaríamos diante da quarta ferida narcísica da humanidade?

 

Quando acreditávamos que havíamos chegado ao pior com a invasão de uma nova peste – a COVID-19 – descortina-se uma realidade mais urgente ainda, a peste discursiva, a forma como a liderança de alguns países – com seus discursos nacionalistas, totalitaristas, fundamentalistas, racistas, eugenistas, negacionistas, segregacionistas – responderam a esse traumatismo mundial. Para além da urgência pandêmica desvela-se a urgência política.

 

2020: o que responde o psicanalista diante da urgência pandêmica e política? Diante da urgência pandêmica, na clínica, no dispositivo analítico, na psicanálise em intensão, o psicanalista sustenta o discurso do analista, avesso do discurso do mestre; promove o tratamento do real, com as ferramentas tecnológicas das quais dispõe: WhatsApp, Zoom, Skype, Face Time. No discurso do analista, o saber (S2) inconsciente, velado no lugar da verdade, sob a barra do ato analítico (a), evidencia a política desse discurso no laço social, a política da falta, correlata à ética do desejo.

 

Frente à urgência política, o que o psicanalista tem a dizer, se no discurso do mestre – discurso da civilização, da instituição, do poder, da dominação – sob a barra do ato de governar (S1), encontramos velado, no lugar da verdade, um sujeito ($), identificado ao nazifascismo, ao nacionalismo, ao antissemitismo, ao antipacifismo, ao militarismo, ao armamentismo? Um sujeito que repudia os cientistas, os intelectuais, os artistas, a história e a cultura? Um sujeito contra o pensamento crítico, que trata seus opositores como inimigos e prega a cultura do elitismo, do heroísmo, do ódio, do machismo, da homofobia? Pois bem, o psicanalista tem muito a dizer, ele tem ferramentas para fazer existir a psicanálise na pólis, fazer com que a psicanálise tenha uma função no mundo, sustentando a psicanálise em extensão, promovendo a transmissão da psicanálise, na discussão sobre as questões cruciais que assolam a humanidade, e assegurando a sua posição anti-totalitarista, antirracista, anti-eugenista, antissegragacionista.

 

O psicanalista transita na clínica e na pólis, tal qual faz uma formiguinha quando passa de um lado ao outro em uma banda de Moebius. A COVID-19 nos fez sustentar, além da responsabilidade clínica, uma outra responsabilidade, a política, a de pensar a psicanálise em sua relação com o discurso de nosso tempo. Na contramão da visada do gozo nazifascista, a ética da psicanálise propõe o desejo, a falta-a-ser, a falta-a-ter e na contramão do imperativo totalitarista, racista, eugenista, segregacionista, a psicanálise propõe a ética da diferença.

 

Para concluir, uma pergunta: Por que razão grande parte da população tem desprezado as medidas de isolamento? Tem afrouxado de tal forma tais medidas, a ponto de promover festas com aglomerações, frequentar bares e casas noturnas lotadas? Por que razão, algumas pessoas dizem que não vão tomar a vacina contra COVID-19? As massas, ensinou Freud, não têm sede de verdade, mas de obediência, elas querem ilusões. Em 2020, Bolsonaro se pronuncia em relação à pandemia. Em 06 de março: “não há motivo para pânico”; em 10 de março: “é uma fantasia que a mídia propaga”; em 16 de março: “se afundar a economia acaba o meu governo”; 17 de março: “a vida continua, não tem que ter histeria”; em 20 de março: “depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”; em 24 de março: “pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar. Nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”; em 18 de novembro: “a vacina não será obrigatória”; em 17 de dezembro: “eu não vou tomar a vacina...nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral, se você virar um jacaré é problema seu. Se virar um super homem ou se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino... E o que é pior, mexer no sistema imunológico das pessoas...”.

 

Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 2020, 9 meses de isolamento social.

Referências

[1] LACAN, J. (1969-1970). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise.

[2] LACAN, J. (1953) “Função e campo da fala e da linguagem” (p.322).