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IF-EPFCL Brasil: Comissão Relações étnico-raciais, diversidade e equidade

Elisa Cunha, Francina Sousa, Lulu Barbosa, Michele Borges e Vera Edington

Que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem nada soubesse da dialética que compromete com essas vidas num movimento simbólico. Que ele (o psicanalista) conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua de Babel, e que conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas (LACAN, 1953/1998, p.322).

A carta de princípios da IF-EPFCL nos instrui que “contribuir para a presença e manutenção dos desafios do discurso analítico nas conjunturas do século” é o objetivo principal dos Fóruns associados a ela. Estar à altura da subjetividade de sua época é condição proposta por Lacan àqueles que se dizem analistas e pode muito bem servir de bússola aos Fóruns, organismos que trabalham em torno de fazer o discurso psicanalítico existir na civilização, com a virulência que lhe é intrínseca, de modo a “assegurar a repercussão e a incidência deste no seio dos outros discursos.”[1]

Em Pandemundo (2020), Luís Izcovich destaca com Lacan a relação entre segregação e a fraternidade dos corpos, base do racismo, e esta seria o mais grave a se encontrar no horizonte da subjetividade de nossa época e nos adverte: “Essa fraternidade, à origem, base do racismo é muito mais grave que o vírus que nos afeta e nos coloca a evidência que nossa função, quanto aos anos que virão e quanto ao lugar da psicanálise, é prosseguir com o desejo indestrutível dos nossos analisantes e sustentar em nossa época, um discurso alternativo frente ao crescimento do racismo”[2].

A descoberta freudiana tem como fundamento enfrentar a inquietação que nos provoca o Outro, o que se traduz em mal-estar. O narcisismo das pequenas diferenças “está na base da constituição do eu”, do nós e do outro, na fronteira que tem por função resguardar o narcisismo da unidade, com efeitos de segregação.

O termo racismo não pertence ao vocabulário corrente e tampouco aos conceitos fundamentais da Psicanálise; porém é reiteradamente imposto como uma noção à qual recorremos e colocamos em discussão na medida em que nos deparamos com seus efeitos na cultura. Trata-se de uma ferramenta conceitual que a Psicanálise, diante do fenômeno de manipulação do sentimento de estranheza à diferença do outro que explodiu no interior das grandes massas modernas, utiliza-se ao voltar-se para o campo da política em seu aspecto de eliminação do multiculturalismo e da diversidade.  Lacan nos advertira da relação entre os avanços do neoliberalismo e do recrudescimento dos processos de segregação.

Do campo da sociologia recebemos o importante diagnóstico: Lélia Gonzalez anuncia que o racismo é a neurose cultural por excelência do Brasil. As consequências disto, nos sujeitos, são recolhidas em nossa escuta clínica, no um a um. Mas e quanto aos seus efeitos nos laços sociais, incluindo aquele entre os analistas no interior de nossa Federação? Que incidências no que diz respeito ao acesso daqueles desejantes de psicanálise à formação analítica?

O quilombismo de Abdias do Nascimento sustenta a proposta de uma organização social e política descolonizada, em que os manejos homogeneizantes e etnocêntricos deem lugar a uma identidade própria através da tecitura de redes que apostem em um enunciado onde a ampliação das margens seja uma das metas. Esta Comissão, aquilombada em torno dos significantes “relações étnico-raciais, diversidade e equidade”, significantes estes que desde nosso primeiro encontro fazem furo e nos questionam quanto ao que e como fazer enquanto comissão, pretende-se como organismo de reflexão e ação para, junto aos Fóruns federados à EPFCL-Brasil, ampliar margens, fazer com que estas possam tocar ao menos alguns dos excluídos, aqueles que desejem se infectar pela peste da psicanálise.

[1] Carta de Princípios da IF – EPFCL
[2] https://www.youtube.com/watch?v=uggEfWlzD5w

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