XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio XVIII

O corpo, ali onde se inscreve o efeito sujeito
Consuelo Pereira de Almeida
 

Quando Lacan faz uma critica à rejeição do corpo para fora do pensamento no cogito proposto por Descartes “Penso, logo sou”, é para dizer que essa foi sua grande Verwerfung.1 O que foi foracluído por ele no simbólico, reaparece no real pois, o corpo, decididamente, não é uma máquina. É o efeito sujeito no corpo que retorna no real, naquilo que, muitas vezes, aparece como enigma diante do olhar médico. Ainda hoje, na medicina dita moderna, esbarramos em abordagens do corpo como máquina, seja nas inúmeras especialidades médicas que a cada vez vão recortando mais e mais o corpo anatomicamente em busca de uma especificidade de saber, seja no meio hospitalar ou mesmo nos consultórios médicos onde o doente é visto pela doença, por uma parte do corpo, e não como fazendo parte dele. Desde o início de seu ensino, Lacan já tratava da questão do corpo e, ao fazer referência à divisão feita por Descartes, aponta como o médico com relação ao corpo “tem a atitude do homem que está desmontando uma máquina”2.

 

As UTIs, com seus tratamentos cada vez mais sofisticados, nos dão uma demonstração clara de como o corpo dentro desta visada de máquina se reproduz em números, nas telas de vários monitores suprimindo cada vez mais o efeito sujeito. A neurologia quando estuda os “transtornos funcionais”, que nós psicanalistas chamamos de histeria de conversão, através de seus exames vai averiguar as incongruências do sujeito quanto a sua queixa e nomeá-lo.

 

Nas cirurgias plásticas cada vez mais freqüentes e feitas muitas vezes sem uma profunda avaliação, encontramos sujeitos que mesmo sendo operados para fazer uma “suposta correção”, o que se observa são manifestações subjetivas muitas vezes inesperadas. Onde se esperava uma satisfação diante da reparação do defeito da imagem, seja real ou imaginário, verifica-se ao contrário um descontentamento, episódios depressivos e algumas vezes uma despersonalização.

 

Na atualidade já temos um transtorno mental nomeado pela medicina como dismorfia corporal cujo sintoma é a insatisfação extrema com a imagem do corpo. São casos em que o sujeito, por ter uma percepção distorcida da própria imagem, preocupa-se de forma exagerada com defeitos que muitas vezes são imaginários, ou até mínimos, levando à busca de infindáveis cirurgias plásticas. Tudo isso é para dizer que o sujeito como Lacan o define é insubstancial. Ele é o que um significante representa para outro significante e, ao mesmo tempo, é mortificado e alienado pelos significantes que advêm do Outro.

 

O sujeito e o corpo, portanto, são disjuntos. O sujeito enquanto representado por significantes é anterior ao seu nascimento, precede assim seu próprio corpo. Ao mesmo tempo, é pelo corpo que esse sujeito evanescente da cadeia vai se presentificar, criando vários enigmas para a medicina, apontando o que foi denominado por Lacan como falha epistemo-somática. Uma falha entre o saber científico sobre o corpo e o que este corpo – habitado por um sujeito do desejo e do gozo ignorado pela ciência – poderá vir a apresentar como fenômeno devido às suas próprias características e particularidades, mesmo em seu estado adoecido. Lacan propõe que se o “homem tem um corpo, é pelo corpo que se o tem”5.

 

O que envolve um “pegar”, que pode se dar de dois modos. No sentido real do termo, algo que constatamos no grande número de mulheres que são agredidas, bem como todo tipo de agressão que temos vivido especialmente aqui no Rio de Janeiro. Mas também no sentido figurado do termo, isto é, do que possa representar para um sujeito ter um corpo. Isso pode se impor não só naquilo que acaba aparecendo como insatisfação corporal que faz enigma para os médicos, mas nos cuidados exagerados que são dados aos corpos esculpidos nas academias onde o sujeito como se diz fica “pegado” ao seu corpo - ou seria ao seu gozo?

 

Os significantes ao habitarem o corpo vão alcançar o individuo, dono deste corpo que é feito para gozar, tornando o significante não mais signo da falta-à-ser do sujeito, mas signo de seu ser de gozo. Se inicialmente com a incorporação significante o gozo é subtraído do corpo, este passa a ser um produto da linguagem, fabricado por ela. Agora a linguagem passa a ter um papel ainda mais importante, no sentido de que “o significante é a causa de gozo”6 podendo atuar no corpo pulsional, nas zonas erógenas, nos próprios sintomas que se encarnam e se escrevem no corpo. Daí a importância de se escutar o sujeito, pois o corpo é suporte do sujeito pela via significante, sustentando a relação do sujeito com o Outro.

1 J. Lacan, Seminário O ato psicanalítico, 1967-68, Inédito p. 89

2 J. Lacan, O Seminário Livro 2 o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, Rio de Janeiro, J. Zahar, 1987, p. 97.

5 J. Lacan, “Joyce, o Sintoma” in Outros Escritos. Rio de Janeiro, J. Zahar, 2001, p.565

6 J. Lacan, O Seminário Livro 20 mais ainda, Rio de Janeiro, J. Zahar, 1985, p. 36

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