EPFCL - Brasil 

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Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

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Encontro Internacional

A questão dos laços sociais é de ponta naquilo que Jacques Lacan chamou, em 1970, de « campo lacaniano » como campo do gozo, e hoje em dia a encontramos em toda parte já que esse campo está em toda parte. Os laços que unem o casal, a família ou o mundo do trabalho se tornaram tão precários que a questão sobre o que os desfaz está em todas as bocas.

 

Culpa do capitalismo, diz-se, ou da ciência que o condiciona.  No entanto, é na psicanálise que ela surgiu no início do século passado quando Freud, no momento em que se interrogava sobre a « psicologia das massas », seguindo o fio da fala analisante, não pode deixar de reanimar o antigo par Eros – o deus do laço – e Tânatos – a potência « demoníaca » que dissocia. Assim ele articulava a clínica da intimidade e as questões violentas da sociedade do capitalismo, mostrando, como Lacan o formulou, que « o coletivo não é nada senão o sujeito do individual » [1].

 

Desde então, a psicanálise tem sua palavra a dizer sobre ambos os temas, pois a mesma questão se coloca aos dois: o que é que aproxima os corpos invisivelmente, o suficiente para tê-los sempre levado a fazerem par e sociedade, e o que é a potência que desagrega? Essa potência reconhecida por Freud foi nomeada de gozo por Lacan. Ela constitui o substancial do campo lacaniano que não é apenas aquele do desejo, mas aquele dos « acontecimentos » de gozos de corpo, onde eles se produzem.

 

Ora, o gozo não é enlaçador, ele é sempre de apenas um só, quer seja na repetição, no sintoma ou mesmo... no ato sexual. Esse tema dos laços sociais nos convida a percorrer tanto o campo do social quanto o do « um por um » e, de início, em função dos instrumentos forjados pela psicanálise para pensar o sujeito do inconsciente.

 

I. Linguagem, discurso, nó borromeano são, daí, os três termos mais importantes.  Através deles, Lacan tentou repensar e reordenar toda a clínica freudiana no que nela faz enlace e desenlace. 1. Freud nos deu as primeiras palavras mestres: pulsão, libido, narcisismo, repetição, pulsão de morte, sem esquecer as identificações correspondentes pelas quais os falantes se socializam.

 

Essas raízes freudianas precisam ser re-exploradas. 2. Lacan as remanejou inicialmente a partir da cadeia da linguagem, o que ele chamou de « agregações docilizantes do Eros do símbolo » [2] via demanda e desejo. Depois, a partir da estrutura de discurso. Esta ordena lugares distintos que asseguram os laços sociais aos quais falta a ordem sexual que aí não há. Enfim, Lacan lançou mão da amarração borromeana das três consistências próprias ao falante, que são imaginário, simbólico e real, nas quais os nós não vão sem o acontecimento do dizer, para darem conta do que, por sua vez, ele nomeou em relação ao « sujeito real » e seus laços sociais possíveis.

 

Para cada um desses passos, é o conjunto do corpo clínico freudiano que é recolocado no canteiro de obras, atestando que, aqui como acolá, uma teoria é responsável pelos fatos que ela permite estabelecer, os quais, em retorno, a confortam. Demonstração a ser sempre recomeçada. 

 

II. O Laço social em questão 

1. Sua definição na psicanálise começa com a psicologia das massas de Freud e prossegue até a estrutura dos discursos de Lacan. Para Freud, em todos os casos, é a libido incluindo o amor e o desejo, e as diversas identificações que ela determina – que assegura os laços.

 

Mas há vários tipos de laços, e a ordem que eles estabelecem entre os indivíduos, é sempre uma ordem dos gozos porque « apenas há discurso [...] do gozo » [3]. Donde a incidência política: sem a regulação dos gozos que asseguram os discursos, não há sociedade possível, e toda a questão é de saber como essa regulação se instaura em cada indivíduo.

 

É sobre esse ponto que o capitalismo apresenta seu desafio.  2. Sem falar da miséria que ele engendra, já não há dúvida de que ele degrada os laços sociais estabelecidos, gerando solidão e precariedade, pois, doravante, o indivíduo é o último resíduo dessa degradação. Isso sabemos, mas falta ainda dizer como, através de qual astúcia, e quais são os limites possíveis de suas devastações? Eros seria um recurso? 

 

III. Clínica dos parceiros.

A questão diz respeito aos parceiros no amor, na psicanálise e fora dela. 1. Querer-se-ia que de dois o amor faça um, mas os amores humanos já têm um destino traçado, uma experiência ancestral o atesta, ele vai do arrebatamento ao desespero ou ao desencantamento. Lacan marcou suas fronteiras pela distância das duas fórmulas « tu és minha mulher », em 1953, e « matar » [4] minha mulher, em 1973.

 

Tratar-se-ia de mostrar o que aí opera, no particular de cada caso, para romper tanto o diálogo esperado quanto o encontro dos corpos. Está aí o problema do real em jogo no amor, com a questão de saber o que acontece com ele depois da análise. 2. E, ainda: há a transferência analítica que introduz um novo no amor, uma subversão[5], que certamente « faz promessa » [6], mas qual? As peripécias dos amores de transferência descobertas por Freud jamais perdem sua atualidade, elas se espalham entre eternização, rupturas e reiteração. Que solução para elas?

 

As fórmulas abundam: liquidação, falha percebida, queda; mas é esse o fim da transferência no próprio final da análise? Também aí podem instruir somente os casos particulares.  

 

Colette Soler, neste 22 de dezembro de 2014. Tradução: Sonia Alberti

 

[1]  Lacan, J. (1945/1998). O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In : Escritos. Rio de Janeiro, J.Zahar. P. 213, n. 6.

 

[2] Lacan, J. (1953/1998). Função e campo da fala e da linguagem. In : Escritos. Rio de Janeiro, J.Zahar. P. 321. [3]  L’envers de la psychanalyse, seuil, Paris, 1991, p. 90 [4] Em francês, um jogo de palavras : tu es ma femme e tuer ma femme, respectivamente.

 

[5]  « Introduction à l’édition allemande des Ecrits », Autres écrits, Seuil, Paris, 2001, p. 557 [6]  Télévision, Seuil, Paris, 1973, p. 49