EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Encontro Nacional

Introdução

 

Vivemos uma época na qual a multiplicidade de diagnósticos estabelecidos pela psiquiatria se coaduna com os recursos oferecidos pela farmacologia. Ambas são hoje as propulsoras dos "GPS" dos manuais de diagnóstico (DSM e CID) que tendem a enquadrar as doenças mentais em modelos dronizados com suas classificações por "transtornos". Frente a essa pulverização diagnóstica, a psicanálise, de acordo com as indicações de Freud, mantém os três diagnósticos estruturais de neurose, psicose e perversão. São estruturas clínicas que se referem a posições diferentes da subjetividade em relação à linguagem e ao gozo, cada uma com sua lógica própria, cada qual com seu mecanismo específico de constituição, permanecendo irredutíveis umas às outras, sem um entrelaçamento possível entre si. Quais são os consequentes enlaces e desenlaces que decorrem, em cada sujeito, da referência a cada uma dessas estruturas e a seus tipos clínicos?

 

Para arguir tal diagnóstico é preciso tomar a travessia pelo Complexo de Édipo como elemento fundamental que descortina a posição de cada um frente aos modos de negação do Édipo, nominados de recalque na neurose, de desmentido na perversão, e de foraclusão na psicose. Essa negação, como escreveu Quinet, se expressa no neurótico por um “não quero saber sobre isso”, no perverso por um “eu sei... mas mesmo assim”, e no psicótico por “eu não sei nada disso”. Como se modulam os laços dos sujeitos e suas impossibilidades segundo essas modalidades de negação do saber? E como apreender na clínica os modos de questão sobre a existência como ser sexuado e mortal para se pensar o possível de lidar com a castração? 

 

Por outro lado, para a psicanálise, orientada pelo campo lacaniano, não há diagnóstico que se sustente a priori e que se dê fora do laço transferencial. E assim cada diagnóstico só é válido para um sujeito: um a um. Com a clínica dos discursos, como laços sociais, Lacan promove uma ampliação dessa leitura, introduzindo as modalidades subjetivas de laços (ou dos fora dos laços) que constituem o sujeito dentro da 

civilização e seu consequente mal-estar. E com a clínica do nó borromeano e do sinthoma como quarto elo, Lacan abre o caminho para se pensar a clínica a partir dos enlaces de três registos do ser falante: o Real pulsional, o simbólico do Inconsciente, e o Imaginário do corpo. Desta forma, é importante retomar o conceito de sintoma, como o nome que se dá ao sinal de sofrimento do humano no corpo e na mente e também ao que faz laço entre os três registros psíquicos. 

 

Se na psiquiatria o termo "sintoma" desapareceu para dar lugar ao “transtorno” (DSM V), para o analista ele permanece sendo uma forma paradoxal de satisfação que deve ser acolhido, pois constitui, de início, uma mensagem do sujeito à busca de um receptor. Longe de diagnosticá-lo para ser suprimido imediatamente, o analista faz o sintoma falar estando advertido de que não há sujeito sem sintoma, pois esta é a "maneira de gozar do Inconsciente" (Lacan). A psicanálise é o tratamento que vai do sintoma como patológico (de pathos sofrimento) ao sinthoma lógico que enlaça a estrutura. 

 

Em suma, nossa proposta nesse XVI Encontro dos Fóruns do Campo Lacaniano - que ocorrerá em Curitiba entre os dias 30 de outubro a 02 de Novembro - é debater os enlaces e desenlaces para cada sujeito relativos aos seus vínculos com seus outros, assim como os enlaces da subjetividade entre os registros real, simbólico e imaginário. Esperamos, assim, promover laços não só entre nossos pares, mas também com colegas de outros campos do saber que se entrelaçam com a psicanálise.

 

Sandra Mara Nunes Dourado