EPFCL - Brasil 

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Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio XV

Segregação do corpo: escravidão e silenciamento

Alba Abreu

 

Não me venham dizer
Que os meus avós foram
Escravos submissos
Por favor não me venham dizer
Eu não aceito mentiras
Cortarei com a espada
Dos meus versos
A cabeça de todas as mentiras
Mal intencionadas
Com que pretendem humilhar-me
Destruir o meu orgulho
Falseando também
A história dos meus avós
Os meus avós foram bravos
Foram bravos os meus avós
Carlos de Assumpção

Os fenômenos de segregação questionam o analista pela repetição, exibicionismo, propagação e falta de pudor na demonstração do ódio ao outro visto como estrangeiro, de raça inferior, imigrante, forasteiro ou ‘paraíba’.


Freud em O mal-estar na cultura assinala que ‘o sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, do mundo externo e de nossos relacionamentos com os outros homens’. E o corpo negro, destinado à destruição no relacionamento com os outros homens como foi na escravidão e persiste no mundo atual, sob a forma do racismo, subjugado, sem valia e desapropriado sob o manto da invisibilidade e silenciamento?


Mbembe em Crítica da razão negra descreve como, da plantação à colônia, o conceito de escravo acaba por se fundir com o de negro até se tornarem sobreponíveis. O racismo seria o modelo legitimador da opressão e da exploração a serviço do capitalismo, o qual carecia de pressupostos raciais para subsistir. O significante negro, inventado pelos europeus para desumanizar o homem de África e torná-lo moeda/coisa para produzir no além-Atlântico, legou ao negro a falta de um nome próprio, desabonando-o de sua ancestralidade, seu romance familiar e de sua história. Excluído do campo das representações, encarnava a lógica capitalista do corpo como puro objeto de gozo. Até mesmo o discurso sobre os direitos humanos, herdeiro do iluminismo, utilizou a escravidão como metáfora da condição humana, assim apagando e silenciando a existência do racismo sob a bandeira da igualdade e da fraternidade. Impossível negar que foi o olhar do colonizador que inventou o negro, um olhar que não enxergou nada além de um corpo para obter lucro.


Lacan conceitua o sujeito como representado pelo significante e enquanto respondendo às significações advindas do campo do Outro, constituindo-se como efeito da cadeia de significantes. O campo do Outro desenha o programa subjetivo dos significantes do sujeito e esse programa contém o conjunto de significantes que demarcam o sujeito em sua história, seu desejo, seus ideais e fantasias inconscientes. A decisão/escolha do sujeito, diante do que é programado pelo Outro, opera a partir de um enigma que gira a chave de seu desejo, convoca sua singularidade e seu modo particular de gozo. Nessa perspectiva, a psicanalise aposta num sujeito único, com um dizer singular e, dessa maneira, somos todos estrangeiros.


Freud advertia que a segregação é anterior à fraternidade, ou seja, como manifestação do mal-estar na cultura, o racismo tangencia a estrutura mesma do sujeito. A relação entre os semelhantes remete a uma dicotomia, pois o alicerce de todo amor é narcísico. Um laço social baseado no narcisismo busca corpos semelhantes, uma imagem que é idolatrada e colocada como ideal para todos. Por isso, diz Freud, é sempre plausível a união de alguns, sob a condição de deixar outros de fora, para poder lançar o ódio e a agressividade contra estes.


O psicanalista não aborda o sujeito pela cor, sexo ou diferenças pois desse modo estaria contribuindo com a lógica segregativa e, em verdade, com um problema dele próprio, o de suportar a impotência da linguagem em inscrever a relação sexual.


Como diz Mbembe “ao reduzir o ser vivo a uma questão de aparência, de pele ou de cor, outorgando à pele e à cor o estatuto de uma ficção de cariz biológico, os mundos euro-americanos em particular fizeram do negro e da raça duas versões de uma única e mesma figura, a da loucura codificada”


A homogeneização do mais-de-gozo regulada pelas leis de mercado capitalista promove a ausência de diferenças e exclui quem não se amolda. São diversas as formas de rejeitar a existência do gozo do Outro, tais como segregar, calar, excluir e, inclusive, tentar torná-lo igual através do mecanismo da assimilação, no entanto, são todas práticas de racismo.


Para Mbembe, o atual mundo globalizado requereria uma crítica radical da raça, tanto política como ética, a partir da qual seria possível passar de uma afirmação da diferença para uma afirmação da comunidade humana. O devir-negro do mundo introduz a possibilidade de pensar outros sujeitos “racializados” - muçulmanos, por exemplo - como os “novos negros” do mundo contemporâneo, o que reforça a ideia de que a categoria negro não passa de uma ficção útil.


Lacan nos recomenda, em Televisão, “deixar a esse Outro seu modo de gozo, eis o que só se poderia fazer não impondo o nosso, não o considerando um subdesenvolvido”. Uma análise em sua dimensão ética deve recuperar o desejo de cada sujeito para que não seja mais submetido aos ideais do Outro e ao ideal de “mesmo gozo para todos”. Concerne à ética da psicanálise tratar a relação do sujeito com o mundo sempre incluindo aí sua história. Com isso é possível enfrentar o racismo, e não silenciar diante de corpos tombados pelas marcas da escravidão e da segregação, restituindo a ancestralidade e lembrando antepassados que são os nossos, de todos os humanos.