EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 6 - Silvia Migdalek

Epígrafe

 

 

…o discurso analítico. “Na medida em que o defini como o laço social que emerge em nossos dias, esse discurso tem uma valor histórico a ser destacado. É certo que minha voz é débil para sustenta-lo, mas talvez seja melhor assim, porque, se ela fosse mais forte, talvez eu tivesse menos possibilidades de subsistir, quero dizer que me parece difícil, por toda a história, que os laços sociais até aqui prevalentes não façam calar a voz feita para sustentar outro discurso emergente. É o que sempre se viu até aqui, e não é por que não há mais inquisição que se deve crer que os laços que defini: o discurso do mestre, o discurso universitário, inclusive o discurso histérico-diabólico não sufocariam, se posso dizer, o que eu poderia ter de voz. Dito isso, enfim, eu, aí dentro, sou sujeito, estou ocupado com este assunto porque me pus a ex-sistir como analista. De nenhum modo, isto quer dizer que eu ache que tenho uma missão de verdade. Houve gente assim no passado, caíram de cabeça! Eu não tenho missão de verdade, posto que a verdade – insisto nisso – isso não pode dizer-se: só pode meio dizer-se. Regozijemo-nos que minha voz seja baixa. (J. Lacan Seminário 22 RSI, inédito, clase 9, del 8 de abril de 1975 )

 

Nosso encontro será a ocasião de debater e refletir acerca de um tema de importância crucial para o futuro da psicanálise. Podemos nos interrogar acerca da conjuntura contemporânea, do contexto em que a prática da análise “ainda” se sustenta como um discurso na cultura em que, contingencialmente, se institui um modo de laço social inédito para o qual a realidade não oferece nenhum modelo, encontro contingente de um desejo analisante com um desejo de analista. 

 

A psicanálise é um saber advertido da pulsão de morte. E isto está incluído no cálculo que o laço analítico, enquanto social, propõe ao sujeito. É também por isso que podemos dizer que Lacan chamou o discurso analítico de o avesso da vida contemporânea. O laço proposto pela psicanálise, sua particularidade, sua eficácia, entram em concorrência com as respostas e remédios de gozo da nossa civilização. Entram em concorrência porque, na psicanálise, trata-se de uma resposta que não apenas não oculta a falta-a-ser do sujeito, como também alcança o mais vivo do ser, seu gozo, suas modalidades singulares de satisfação pulsional, os afetos enigmáticos: …“afetos que são o resultado da presença de lalíngua na medida em que ela articula coisas de saber que vão muito além do que o ser falante suporta de saber enunciado.”(J. Lacan, Seminário 20, Mais, ainda)

A prática da psicanálise está estreitamente ligada ao que podemos chamar, em sentido amplo, de “práticas culturais”, por isso ela deve nutrir-se necessariamente da cultura de seu tempo. Tenho a convicção de que esta é a única maneira de contribuir para o nosso tempo, de algum modo esclarecendo as molas em jogo na configuração da subjetividade de uma época.

 

A prática da psicanálise, o psicanalista na cidade, dá lugar para que a Outra cena se instale, e muitos pacientes relatam não apenas o incômodo que lhes causa a pergunta do parceiro – o que você falou hoje na sua sessão de análise? – o que não incomoda apenas pela intromissão, mas, sobretudo, porque é verdadeiramente difícil fazer com isso um relato-laço de por qual labirinto do inconsciente se esteve sempre vadiando ao acaso... Alguns pacientes referem também que, durante um breve tempo, preferem ficar ruminando palavras sozinhos sem ver ninguém, e outros e outras que se fazem buscar na saída de sua sessão, talvez para desalojar rapidamente suas ressonâncias... 

 

Podemos nos perguntar que laço social a prática da psicanálise institui. Gostaria de assinalar uma nuance, como uma pequena mudança da ênfase naquilo que sempre ouvimos como uma frase de Lacan: que o psicanalista “deve” dar conta da subjetividade de sua época; eu gostaria de introduzir uma certa nuance orientando a pergunta: de que modo a psicanálise como discurso da época incide na subjetividade de seu tempo?

Trataremos de pensar, explorar, considerar e reconsiderar as posições em que se situam os protagonistas da experiência e de que maneira isto produz a eficácia da clínica própria à psicanálise. Para concluir, deixo aqui lançada para nossos próximos debates em Medellín uma pergunta antiga que tenho, a qual, creio, nos conduz ao tema escolhido para o IX  Encontro, “Enlaces-desenlaces segundo a clínica psicanalítica”:  qual cura na psicanálise?

 

Silvia Migdalek Buenos Aires, Setembro 12 de 2015

 

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Traducido por Vera Pollo y Maria Luisa Rodriguez