EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 08 - Manel Rebollo

Imagine 

 

 

      www.youtube.com/watch?v=RwUGSYDKUxU

 

....as relações mútuas dos homens são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação pulsional que a riqueza existente torna possível; em segundo lugar, porque o ser humano individual pode, ele próprio, relacionar-se com o outro como um bem mesmo, se este explora sua força de trabalho e o toma como objeto sexual; em terceiro, ademais, porque todo indivíduo é virtualmente inimigo da cultura, embora se suponha, está destinada a ser um interesse humano no universal. É notável que, tendo tão poucas possiblidades de existir isolados, os seres humanos, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a cultura deles espera, a fim de permitir uma convivência. Por isso, a cultura deve ser protegida contra os indivíduos, e suas normas, instituições e mandamentos cumprem essa tarefa; não somente perseguem certa distribuição de bens, bem como conservá-la; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de bens. As criações humanas são frágeis, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação. 

 

Sigmund Freud, 1927. “O futuro de uma ilusão”

 

 

Imagina que não há paraíso, é fácil se tentares.

Sem inferno sob nós, acima só o céu.

Imagina toda a gente vivendo o agora...

Imagina que não há países, não é difícil de o fazer:

nada pelo que matar ou morrer, e sem religião tampouco.

Imagina toda a gente vivendo a vida em paz.

Deves saber que sou um sonhador, porém não sou o único.

Espero que um dia te unas a nós e o mundo será uno!

Imagina que não há possessões. Pergunto-me se podes:

sem necessidade de avareza ou fome. Uma irmandade homens.

Imagina toda a gente compartilhando todo o mundo.

Podes dizer que sou um sonhador, porém não sou o único,

espero que algum dia te unas conosco e o mundo será uno!

 

Jonh Lennon, 1971: “Imagine”

 

 

  “Que se diga fica esquecido por tras do que se diz em o que se ouve”.

 

Jacques Lacan, 1973: “O aturdito”

 

 

Em 1971, John Lennon nos instava a “join us”, a “unirmo-nos”, a “fazer laço” em um mundo que havia de ser Uno. Sonhador empedernido, aspirante a “nada pelo qual matar ou morrer”, foi assassinado em 8 de dezembro de 1980 por um hère. Assim passou de herege a herói, e 35 anos depois de sua morte, sua canção segue sendo um hino celebrado no ocidente, enquanto milhares de refugiados sírios tentam fugir do horror do Estado Islâmico para encontrar-se na velha Europa, com o mesmo horror – campo de concentração – da terceira facticidade- real, demasiado real – que Lacan nos anunciava em 1967: “Nosso porvir de mercados comuns encontrará seu contrapeso na expansão cada vez mais dura dos processos de segregação.”

Que porvir, então, para essa ilusão? Que dizer dos analistas, sobre os quais Lacan insta a renunciar aqueles que não podem acercar seu horizonte à subjetividade de uma época?

 

A história das instituições analíticas não é borromeana. Encontrando seu pecado original no comité dos sete anéis, que Freud instituiu, a Associação Psicanalítica Internacional logo deixou solto o anel do pensamento freudiano, que haveria de tê-la enlaçado melhor. Lacan pretendeu restituir esse enodamento com seu “retorno a Freud”, e isso lhe custou a excomunhão. Em seguida, fundou sua Escola, que dissolveu depois de constatar que sua aposta no passe – nova tentativa de enodamento – não conseguiu fazer sinthoma em sua comunidade analítica. Após a dissolução , veio a ECF, mais tarde a AMP, e tampouco nela o passe enodou: o Uno se impôs, e de novo um amplo setor de analistas se soltaram.

No “Futuro de uma ilusão”, o que Freud anuncia sobre os seres humanos é perfeitamente aplicável  à relação entre os analistas em suas coletividades: tendo tão poucas possibilidades de existir isolados, sentem como fardo opressivo os sacrifícios a que os insta a cultura, a fim de permitir uma convivência.

 

Em nossa nova aposta para fazer possível a convivência entre analistas, na tarefa da transmissão da psicanálise e formação de analistas, constituímos uma coletividade que toma forma a partir de dois modelos: o de Freud e o de Lacan. Do modelo freudiano tomamos a IF, a Internacional dos Fóruns, e do modelo lacaniano, a EPFCL: a Escola. A primeira nos dá o assentamento jurídico, legislado pela Carta da IF, que regula os enlaces e desenlaces entre os membros e entre os fóruns. A segunda pretende ser um elemento enodador de outra índole, como o que pode orientar o trabalho que se deriva da pergunta que nos reúne: O que é um analista?

 

Entendo que a divisão de ambos os campos – fóruns e Escola – possibilita que o ruído que pode produzir-se no terreno IF não dificulte demasiado o alcance do dizer, ou os dizeres, que impulsionam o trabalho de escola. Advogo para que o esquecido no que se ouve não impeça sua eficácia transmissora. 

 

Lacan, porém, não inventou somente o passe como modo de validar o tipo de enlace dos analistas. Também idealizou o cartel, um modo de particular de vínculo entre cinco (quatro mais um) com o objeto e de que os laços pessoais não entorpeçam o que está em jogo: a transferência de trabalho. Por isso, o cartel leva inscrito, desde o início, como destino, sua dissolução ao cabo de, no máximo, dois anos.

A peremptoriedade dos dois anos, junto com a exigência de permutação, constituem dois eixos chaves na organização de nossas instâncias, facilitando assim a série de dissoluções que experimentamos e que facilitam a circulação do desejo em nosso fazer institucional.

 

 

De todo modo, não se alcança o ideal Imagine-ario de uma Escola Una, nem de uma IF Una, posto que há Um (Y’a d’l’Un) funcionando no sinthoma de cada um,  e temos de fazer com ele. Cada nova assembleia internacional, tanto da Escola como da IF, coloca novas modificações na Carta da IF e nos regulamentos da Escola, que devem ser votados.

 

Certo é que não há dizer coletivo, como tampouco há sujeito coletivo, e nem inconsciente coletivo. Porém, é importante apostar para que o trabalho de escola se oriente como um dizer que ex-sita no enxame de ditos de nossa IF. Nesse ponto considero que, assim como Lacan nos disse em “A Terceira” sobre o analista, com respeito a IF, a Escola tem de ser o nó.

 

A história da psicanálise e suas instituições é testemunho de que o tratamento analítico não garante um laço associativo entre os analistas que não leve ao pior.

 

As modalidades de laço que nos damos em nossas instituições, e aquelas que, sem havermos dados explicitamente, funcionam em nossas enunciações, requerem nossa análise, se nos importa o futuro da psicanálise. Para isso, há que seguir fazendo o contra ao real, também no coletivo. Porque a coletividade dos Uns, quanto toma a cabeça o H do humano, do húmus, pode acabar com a psicanálise antes da convivência entre a ciência e a religião. Um exército de “hunos” é o último que necessitamos se esperamos que siga crescendo a hera em nosso campo lacaniano.

A ética que pode assistir-nos em nosso cometido comum, dista muito de ser a “cada um com seu sintoma, com seu desejo, com seu dizer...”. Isso pode, ás vezes, valer  no um por um dos falaseres, porém não funciona na política, no conjunto da pólis psicanalítica. O narcisismo que destila essa posição é solidário do discurso capitalista em sua tendência ao desenlace entre os sujeitos, convocando cada um a uma relação autística com seu particular objeto de gozo.

 

Os analistas não podem ser sonhadores como Lennon. Nossa função é bem mais a de despertar ao real, o que retorna nas novas formas de sintoma, pois o real é seu verdadeiro sentido. E, também, a de recordar o dizer:  aquilo que fica esquecido por trás do que se diz em o que se ouve.

Assim, pois, psicanalistas, um esforço a mais... mais além do sintoma de cada um.

 

Manel Rebollo, 28 de outubro 2015.

 

Tradução Andréa Brunetto