EPFCL - Brasil 

Sede permanente

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Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 10 - Colette Soler

Questões de Método 

 

 

A questão que colocamos, “Enlaces e desenlaces”, não é própria à psicanálise, está por toda parte em nossos dias. Interrogo-me, então, como os psicanalistas podem responder aí, de forma a não se juntar ao coro da deploração geral e/ou segundo seus próprios fantasmas. Recorrendo à sua experiência, digamos.  Sem dúvida, mas os ecos que eles dão dela são tão diversos...

 

É uma boa ocasião para recorrer ao exemplo de orientação decidida que Lacan nos deixou. Uma vez proposto o inconsciente “estruturado como linguagem”, desde 1953, um princípio quase a priori de resolução das questões era colocado: o ser que fala, sendo inteiramente contido pela estrutura da linguagem, não pode ultrapassar os limites que essa estrutura impõe, e encontra-se assujeitado àquilo que ela torna tanto possível quanto impossível. “Que posso saber? Resposta: Nada que não tenha a estrutura da linguagem, de todo modo, donde resulta que até onde irei dentro desse limite é uma questão de lógica”. Donde os anos que Lacan passou seguindo a lógica dessa estrutura e, mais ainda, destacando o que vai além: a hipótese dos efeitos de linguagem sobre a espécie que fala.

Daí vêm todas as fórmulas-chave sobre a divisão do sujeito, a estrutura do fantasma e, em 1970, o impossível de formular e escrever da relação sexual. Um laço social que falta, portanto, salvo sob suas formas epifânicas e efêmeras, como já disse, clivadas de “qualquer laço social”.

 

Como explicar, então, aquilo que, no entanto, constatamos de forma indubitável, a saber, que cada sociedade, desde sempre, fixou uma ordem entre os sexos? A resposta, dessa vez, vem por meio da estrutura dos discursos como laços sociais, resultando, cada um, de um uso específico da linguagem, e que faz suplência à relação faltosa. Lógica dos discursos dessa vez. Ela impõe a todos os apalavrados [apparolés] um discurso, uma divisão entre o gozo produzido, típico de cada discurso, e a verdade de seu gozo, efeito de seu inconsciente real que afeta seu corpo, e que, por sua vez, nunca é padrão, mas irredutivelmente singular.

Passagem, então, do “não há” [y a pas] para o “há” [y a] do “Há Um”[Y a de l’Un]. É o contrário de uma suplência à relação desta vez, é um sem recurso. Ele não duplica a maldição sobre o sexo, mas dá seus motivos sem apelo. É daí, desse “Há Um” irredutível, que a questão de nosso Encontro deve ser abordada, ao menos para aqueles que queiram seguir, até seu termo, e sem  imitá-lo, se possível, o método de orientação do qual Lacan deu o exemplo.  

 

O que faz, então, essas “unaridades” falantes aglutinarem-se, já que é patente que elas aspiram a isso e que, além disso, hoje ainda mais do que antes, elas não se bastam a si mesmas em razão dos efeitos da ciência amplificados pelo capitalismo, que aumentaram consideravelmente sua interdependência vital? Se “há Um e nada mais” [y a de l’Un et rien d’autre], como diz Lacan no fim, embora haja... o sentimento, ou seja, segundo ele, o ódio – o verdadeiro, não o contrário do amor, aquele que destrói –, seria preciso então contar, no que diz respeito aos laços, com as pulsões de autoconservação que prevalecem sobre as pulsões libidinais? Freud lutou contra Trotter e sua ideia de que o homem é um animal de rebanho, gregário então, pois ele, por sua vez, acreditava no animal de bando – com chefe, portanto. Para nós, que não acreditamos mais no homem natural, mas no falante desnaturado, a questão se coloca em outros termos. 

                                                       

Colette Soler, 25 de fevereiro de 2016  

 

Tradução: Cicero Oliveira e Dominique Fingermann