EPFCL - Brasil 

Sede permanente

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Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

XX Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio I

ADOLESCÊNCIA: O CORPO DISSIDENTE

Dominique Touchon Fingermann

 

A entrada do corpo na política começa cedo, desde que o organismo se transforma em corpo, ou seja, antes mesmo de alguém “se entender por gente”. O corpo transtornado se molda pela alienação ao outro, se procura nas tentativas de separação e, por acaso, se acha nas dissidências dos acontecimentos, de corpo: o sintoma.


O sujeito adquire um corpo pela graça de um enodamento do real, do imaginário e do simbólico, o qual, em geral, basta para mantê-lo de pé. Desde o princípio, o pequeno UOM se incorpora (Umcorpora), em virtude da encarnação do significante do Outro, a partir do corpo a corpo com o outro, parceiro do amor e do acaso. Em geral, isso basta para uma boa sustentação RSI, o nó mantém invisivelmente o corpo trançado e estressado entre o Um e o Outro.


Mas nada, de fato, detém o mistério do corpo falante e, de tempos em tempos, aquilo escapa, transpira, explode, incha, desincha, arrebenta, espirra, não para quieto: há discordância, desacordo e muitas discórdias: o em-corpo [en-corps] não segura mais a corda. O mistério do corpo que não se alienou pela linguagem escancara a sua dissidência. 


Os “acontecimentos de corpo” traduzem o Dizer daquilo que não tem pé nem cabeça, sem sentido [pas de sens]: o ab-senso [ab-sens]/ab-sexo não mais consente em se calar, e o em-corpo faz ressoar seu mistério por meio da voz da pulsão e do gongo da repetição. Mais, ainda! [Encore]! esse suspiro bem “entendido” ecoa como o eco do Dizer que a ladainha da demanda faria quase esquecer.


Esse mistério do corpo falante, alojado nas dobras do corpo que a alíngua trai, não espera o número de anos para se destacar e fazer barulho. Mas há momentos cruciais, que perturbam os semblantes e seus covis simbólicos e imaginários: a saída da infância é um desses momentos em que o gozo que jaz no corpo se agita.


A adolescência deixa o corpo sem pé nem cabeça. Dizem que é uma crise identitária, é verdade: as identificações parecem ter passado do prazo de validade. A crise se aloca no corpo deslocado, desajeitado, pois ele não cabe mais no seus álbuns de figurinhas, transborda a imagem e seus circuitos pulsionais perderam a bússola. 


A adolescência é um daqueles momentos em que o semblante e a contenção fálica que fazem com que o corpo tenha cabimento [s’embler] pode falhar: o sujeito pode perder a cabeça, ou simplesmente se embaralhar.


Querendo ou não, esses sujeitos chegam com certa frequência ao consultório do psicanalista neste momento crítico do acordo perdido com aquilo que, bem ou mal, dava forma e sentido para a criança que sonhava com o que queria ser quando crescesse. Eles chegam mumificados, ou explodidos, mudos ou espalhafatosos, esperneando ou engonçados: não passam despercebidos, e mesmo aqueles que queriam ter cara de nada, deambulam escancarando a “monstração” deste mistério onde rebuçava-se o monstro da infância. O coração se transtorna enquanto o corpo desmorona.


Para muitos, quase todos, a diferença absoluta, que é sua marca de origem, sítio de um gozo opaco, que desde sempre não fazia nenhum sentido, é vivenciada de repente como inadequação, falta de jeito, mancadas vergonhosas, secretas monstruosidades.


O corpo adolescente e as bizarrices de seu crescimento lunático e de suas excrescências caprichosas vêm, subitamente, dar uma forma precária e falaciosa à “diferença absoluta”. Esse quiproquó os faz procurar desesperadamente a sua diferença indentitária nas pequenas diferenças que fomentam os laços identificatórios mais surpreendentes: a turma das minas, osbad boys, os rejeitados, os anoréxicos, os bipolares, os bis etc.


Mas é evidentemente em direção à diferença dos sexos e o enigma de sua relação impossível que, antes de mais nada, tende a procura de uma resposta para sua identidade à deriva: fazer Um com dois!


Mas como fazer aquilo? Nada de aconselhamento, nenhuma palavra no dicionário que explique isto, não há iniciação para esse mistério, e as teorias sexuais infantis não dão conta dos acontecimentos. “Percorri o Dicionário Meyer de A a Z. Palavras, somente palavras! Nenhuma explicação clara. Este pudor! Para que serve um vocabulário que não responde às questões mais prementes da vida!”, exclama Moritz, herói infeliz da tragédia infantil de Frank Wedekind.


O despertar da primavera,[1]do dramaturgo alemão, escrito no final do século XIX, nos mostra diversas modalidades dos transtornos dos corpos esquartejados entre os infortúnios da alienação e os quiproquós da separação, até que cada personagem se estabilize provisoriamente numa “solução” sintomal que estabelece a sua dissidência própria.


O século XXI proporciona outras medidas para os equívocos da “mise en scène” no palco do mundo, das dissidências do corpo que a adolescência escancara. As mídias dão cotidianamente as piores noticias das desmedidas de algumas dissidências trágicas.

[1]WEDEKIND F. L’éveil du printemps : tragédie enfantine –Gallimard NRF