EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 5 - Glaucia Nagem

Anéis, anéis, anéis... 

 

 

Lacan descobre seu nó Bo no seminário 19, pelo menos é assim que ele nos conta:

“Estranhamente, enquanto eu me interrogava, ontem à noite, com a minha geometria da tétrade, sobre a maneira de lhes apresentar isto hoje, sucedeu-me, ao jantar com uma pessoa encantadora que é ouvinte das aulas do Sr. Guilbaud, que me fosse dada, como um anel posto no dedo, uma coisa que parece, segunda eu soube ontem à noite, do que o brasão de armas da família Borromeu. É preciso fazê-lo com cuidado, e é o que faço. ”(Seminário 19,p. 89)

 

Se os anéis que usava eram feitos com toros, a água guardada em Garrafas de Klein e sua cabeça coberta pelo cross-cap, esse jantar lhe oferece outro anel. Anel feito de anéis que se enlaçam de uma tal maneira que se um se solta os outros ficam livres. Nova apresentação, como ele mesmo nos lembra, da concatenação dos anéis da cadeia significante. Anéis ligados a anéis que se ligam a outros anéis. Só que agora, se um se soltar os outros também se soltam.

 

No entanto, não se trata de apenas trocar um anel pelo outro. Acompanhando os seminários seguintes Lacan bamboleia com diversas configurações do nó. Por um instante parece, e as vezes fazem parecer, que ele jogou seus anéis, garrafas, bonés fora. Abandonando como um resto desprezível sua construção com essas superfícies. Mas, nos surpreendemos que ele volte, insista, reuse esses objetos preciosos. O nó que a princípio parece destronar todo o resto chega a ser feito por toros, para alguns anos depois de sua aparição ser mesmo extraído de tal rosquinha!

 

Trabalho de mágico faz esse Lacan. Mas não por capricho ou apenas diversão. A seriedade que vemos em suas manobras topológicas segue em direção a uma formalização que nos afaste dos fenômenos puramente imaginários sem nos afastar, porém da clínica. O nó permite que pensemos que quando nosso paciente fala há uma operação acontecendo. Uma operação em que Real, Simbólico e Imaginário se trançam, dançam, torcem. E em um tempo se faça um nó. Isso não exclui a clínica, a fala, os manejos, a escuta.

 

Um fragmento: depois de ter chegado com RSI embolado, um balaio de gato como dizem os antigos, um sujeito finaliza seu percurso. Posso seguir daqui para frente só. “Agora ajo sem pensar. Não. Ajo, pois o pensamento está aí”. Sujeito que chegou com pensamento separado da ação pôde nas muitas voltas e reviravoltas cerzir um enlaçamento diferente. Um amor que não exclui o sexo, mas que o faz incluindo a falta. Um laço com o próximo que não o apavora mais pois inclui o não há relação sexual. Possibilidade de circular, virar-se na vida.

 

A clínica nos ensina ainda que a topologia pode nos orientar como um Mapa. Não um Mapa dado na entrada, mas um Mapa construído a cada volta de uma análise. Um Mapa cujas coordenadas já estão no início, mas que o sujeito só o extraí na saída, uma letra.