EPFCL - Brasil 

Sede permanente

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Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 7 - Andréa Brunetto

O laço edipiano 

 

 

Em “Sonhos e ocultismo”, trigésima conferência, das Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, escrita em 1932, Freud descreve dois casos clínicos para refutar o ocultismo, a telepatia, a transmissão de pensamentos. Enfim, essa “tendência à credulidade e à crença no miraculoso” a que a humanidade se agarra. Já tinha escrito sobre esses mesmos casos clínicos onze anos antes, em “Psicanálise e Telepatia”. Com esses exemplos clínicos, Freud nos mostra que o sujeito neurótico está agarrado, enlaçado, no Édipo.

No primeiro caso descrito, uma mulher sucumbe à neurose por não ter podido ter filhos, casou-se com um homem mais velho, aos moldes do pai, e descobre, posteriormente, que ele não poderá lhe dar filhos. Teria três saídas, alega Freud. A primeira, a infidelidade, a segunda, abandonar o desejo de filhos e a terceira, separar-se. Não se separa por questões práticas, afirma Freud, a saída intermediária está inviabilizada, pois seu desejo de filhos é edipiano, infantil, reflete o intenso laço amoroso com o pai, no passado. Quanto à primeira saída, Freud não toca no assunto. E sua paciente encontrou outra via: a neurose.

No segundo exemplo, de um homem, o Édipo se faz com a irmã, e os sintomas aparecem em decorrência do ódio e do desejo de morte ao cunhado.

Anos antes, em “Psicologia das massas e análise do eu”, Freud escreveu sobre os laços amorosos, libidinais, emocionais. Nenhuma vez nesse texto usa o termo desenlace. Usa as expressões: enfraquecimentos dos laços, dissolução dos laços.
Enfraquecer e dissolver tem o mesmo sentido que desenlaçar? Para nós,
psicanalistas, que escutamos para além do sentido, que lemos no pé da letra, não. Desenlaçar, significante que usamos para nosso encontro nacional e internacional, é tributário da teoria dos nós.

Voltando ao texto freudiano, o laço libidinal ao líder é o passo a mais que Freud deu em relação a todos os autores anteriores a ele, na compreensão dos fenômenos de grupo e comportamento dos indivíduos na multidão. Quando desaparece o laço com
o líder há a dissolução dos laços mútuos que uniam todos ao grupo.
Desaparecendo o laço com “a cabeça” do grupo, o líder, tudo está desfeito. Seu exemplo: o general Holofernes perde a cabeça e todos os soldados que o seguiam estão liberados, dispersos. A identificação ao líder é um laço libidinal, sustenta Freud. A identificação é a “mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa”.

E dá três exemplos de identificações, sendo uma delas a que está enlaçada no desejo edipiano.
Os dois exemplos clínicos que dará em Sonhos e ocultismo mostram muito bem isso.  É o desejo edipiano que sustenta o sujeito, também alega Lacan em RSI, e “sustenta a corda do simbólico, do imaginário e do real” (RSI, aula de 14 de janeiro de 1975).

Esse desejo edipiano, que faz um laço amoroso e identificatório, é ele o que o sujeito não pode abandonar, alega Freud no exemplo da mulher ainda à espera dos filhos que não terá do marido e, menos ainda, do pai, já que esse desejo edipiano é indestrutível e irrealizável. Nos desenlaçamos dele algum dia? De sua perpétua irrealização? Ou, dizendo com Lacan, disso que não cessa de não se escrever?