EPFCL - Brasil 

Sede permanente

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Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 14 - Osvaldo Costa Martins

Cartel, um preludio 

 

 

O Cartel é um modo singular de estudo proposto por Jacques Lacan como via de excelência para elaboração teórica no âmbito de sua Escola. Não por acaso Lacan utiliza o termo “escola” em vez de “sociedade” ou “associação”, por exemplo. Se assim o fez, foi para enfatizar uma forma de instituição que não fosse inspirada em modelos oriundos do meio universitário, jurídico e/ou científico.

 

No prefácio ao anuário da EFP de 1971, Lacan ressalta que “o termo Escola deve ser tomado no sentido que nos tempos antigos queria dizer certos lugares de refúgio, e até bases de operação contra o que já podia chamar-se de mal-estar na civilização”

Os tempos antigos a que se refere sugerem aqueles quando Platão atuava em sua Academia. Não nos esqueçamos de que Lacan, entre 1953 e 1963, manteve um Seminário onde congregava inúmeros psicanalistas e, três anos antes de fundar a Escola Freudiana de Paris, dedicou um seminário para comentar O Banquete, de Platão, durante o qual atribuiu a Sócrates o lugar do psicanalista. Lacan reinventava o diálogo platônico das Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, afirma Elisabeth Roudinesco.

 

Em 1964, quando Jacques Lacan anunciou a fundação da Escola Freudiana de Paris, propôs, no mesmo ato, o CARTEL como dispositivo de sua Escola. Destacamos que o lugar do Cartel na Escola de Lacan não é um qualquer, mas, conforme sua própria qualificação, um lugar de base, logo, de sustentação da Escola. Etimologicamente, a palavra cartel remete à cardo/carda, que significa “dobradiça”[1] e também dava nome às Cardas, deusas romanas das portas e umbrais. O termo aparece ainda no adjetivo cardeal que qualifica as quatro principais virtudes humanas na doutrina católica, isto é, as virtudes cardeais. Notemos que o termo conota as ideias de báscula, articulação ou eixo. Observa-se isso no nome das deusas Cardas, aludindo àquelas que protegiam a entrada dos templos e portas das moradias romanas mais ricas; também em virtudes cardeais, ou seja, as virtudes às quais, de acordo com o catolicismo, articulam-se as demais virtudes humanas e, por fim, conota-se na noção de Cartel, dispositivo sobre cujo eixo transitam os princípios de estudo e formação na Escola de Lacan. É de se destacar que para a base, a fundação de algo, Lacan tenha escolhido uma palavra que diz não de um alicerce estático, fixo, como uma coluna, um concreto, uma viga, mas que diz de movimento, trânsito, báscula...  Afinal cardo, dobradiça, umbral, dialogam mais com passagem, contorno, vazio... Na fundação do sujeito, um furo; na da Escola, uma báscula, um dentro-fora, o Cartel.

 

Por ocasião de fundação da Escola, Jacques Lacan propõe e descreve o cartel e seu funcionamento. Vemos então, desde a proposta inicial, todos os elementos que atravessarão os 16 anos seguintes da elaboração teórica de Lacan concernente ao cartel: um pequeno grupo, delimitado entre o mínimo de três e o máximo de cinco pessoas MAIS UMA, que é submetido a um corte necessário efetivado pelo Tempo. Em 1980, é a mesma ideia que se lê em D’Ecolage, publicado no mês de março na Revista Ornicar?, sobre o que Lacan diz: “Dou partida à Causa Freudiana – e restauro em seu favor o órgão de base retomado da fundação da Escola- ou seja, o cartel- do qual, feita a experiência, aprimoro a formalização.”

 

O Cartel distingue-se, portanto, por ser a) um pequeno “coletivo”, marcado pela ausência de mestre b) constituído de 3 a 5 pessoas mais uma; c) reunidas para trabalhar um tema por, no máximo, dois anos. Para constituir e inscrever o cartel em uma Escola, 3,4 ou 5 pessoas se escolhem a partir de um tema proposto, designam alguém para funcionar como o MAIS-UM e iniciam um trabalho de pesquisa e elaboração que, ao final, espera-se que culmine em produções individuais[2] a serem publicamente apresentadas. É o que se pode depreender das argumentações de Lacan também em D’Écolage: “ quatro se escolhem para levar a cabo um trabalho que deve ter seu produto. Preciso: um produto próprio de cada um, e não coletivo. [...] Não se espera outro progresso senão o de uma periódica exposição dos resultados, assim como das crises de trabalho”.

 

Indagado sobre se o MAIS UM deve ser sorteado, Lacan é direto: “não, os quatro se associam e o escolhem”. Se Lacan distingue, dentre os membros do cartel, um por termo específico, o MAIS Um, é também para evidenciar que sobre este recai uma função distinta. A pessoa que estará nessa função deve ser expressamente designada pois ainda que a função possa ser ocupada por qualquer um, deve ser por alguém.

 

Temos, então, que o mais um não é uma pessoa escolhida para “ensinar conteúdos” ou lecionar para os demais. Não importa tanto o percurso de sua formação, mas a possibilidade de trabalhar para velar pelo lugar vazio de mestre. Sua função é, principalmente, a de colaborar para evitar ou minimizar os efeitos nocivos das identificações grupais. Opera, pois, como aquele que subtrai para fazer circular uma economia. Zilda Machado fala em descompletar o grupo para causar a elaboração dos sujeitos.

 

Há relevância também na dimensão temporal implicada no Cartel. Por isso, foram estabelecidos o mínimo de um ano e o máximo de dois para a conclusão dos trabalhos e a dissolução dos cartéis. Porém, tão importante quanto a estipulação do prazo é saber que ele existe e é contado em favor dos trabalhos a serem realizados. No início do jogo, já ecoa o apito final. “O tempo é a medida das coisas que passam”. Dito em termos psicanalíticos, o tempo e suas relações com a finitude correm a favor da castração e impelem o sujeito ao trabalho de elaboração. Ver, compreender, concluir.

Trabalhar em um cartel não é precisamente experimentar calmarias. Sua estrutura, se alcançado o bom funcionamento, convoca o participante “não à exibição, mas à exposição”: de suas ignorância e questões, dos impasses, e também de um saber que deve suportar sempre um insabido.  Num Cartel, diz muito bem Dominique Fingermann, cada um “ é convidado a fazer a experiência de um novo laço com o outro: precisa contar com o outro sem depender dele. Precisa se fazer ouvir e conseguir ouvir o que o outro tem a dizer”. O trabalho em cartel não serve ao Lattes, não faz paper, nem pontua para progressão de carreira. O trabalho em Cartel colabora para o fazer Escola, vai do cartelizante para a Psicanálise, e, de saída, convoca: enlaçar, produzir, desenlaçar.

 

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[1] A referência ao termo dobradiça é do próprio Jacques Lacan, no prefácio ao anuário da EFP em 1971 e em A Função dos Cartéis (1975)

 

[2] Sobre a importância de os produtos serem trabalhos escritos ou não, remeto o leitor aos seguintes textos: “Ata de Fundação” (1964), “Função dos Cartéis” (Jornada de 1975), “D’Ecolage” (1980) e O Cartel (1994), coletânea organizada por Stella Jimenez e prefaciada por Antônio Quinet. .