EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Prelúdio 16 - Maria Lúcia Araújo

Um Cartel, Por Quê? 

 

 

No ano de 1975, precisamente em sua aula de 15 de abril, Jacques Lacan volta a destacar a importância de um dispositivo de escola ao qual não era dada a devida importância: o cartel. Lança então a pergunta: Um cartel, por quê?

 

Sobretudo, Lacan enfatiza, nessa aula, a questão da identificação de cada participante com o grupo, assim como a formalização do cartel usando como recurso o nó borromeano.

 

Categoricamente, afirma: o cartel “parte de três mais uma pessoa, coisa que, em princípio, faz quatro, e que dei como máximo cinco graças ao quê, faz seis”. Em seguida sublinha que os seres humanos quando não se identificam a um grupo “estão mal, devem ser trancafiados”.

 

Colette Soler, ao comentar essas palavras de Lacan, diz que “A identificação, que ele indica, é a identificação ao ponto onde “a” está escrito no nó borromeano”. Ora, este é precisamente o ponto onde falta o saber “(...) Ali onde se situa o desejo”.

 

Assim, operar a partir dessa lógica permite precisar que o ponto nodal de qualquer cartel é promover o tratamento da identificação a partir do singular de cada um. Nesse pequeno grupo a divisão subjetiva deve ter lugar, em contraponto à obturação narcísica desencadeada pela identificação imaginária dos grupos de estudo.

 

Lacan vai sustentar ainda que “(...) é impossível os psicanalistas formarem um grupo e que é pelo discurso analítico que podemos (...) fundar um laço social purgado de qualquer necessidade de grupo”.  Ainda em 1975, nas jornadas sobre cartéis, Lacan assinala que o cartel deve ser um grupo pequeno para que possamos esperar dele os efeitos analíticos.

 

Além disso, um dos princípios do cartel é a implicação do grupo com o fazer Escola. Torna-se importante acentuar essa função do “mais-um” como uma das grandes diferenças entre o grupo de estudo e o cartel, pois ao operar a partir do discurso analítico, o “mais-um” privilegia o saber inconsciente, fazendo com que o cartel funcione como um dispositivo analítico.

 

Quem busca a consistência do Outro encontrará a inconsistência. Quem busca saber do conhecimento, logo perceberá que o que está em jogo no cartel é algo que se refere ao processo analítico e à posição subjetiva de cada um dos cartelizantes. Trata-se, então, nesse dispositivo de Escola, de saber lidar com o real que nos surpreende e trabalhar para preservar os princípios da descoberta freudiana.