XXI Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio I

O PSICANALISTA E O SINTOMA

Maria Anita Carneiro Ribeiro

 

Ontem,16 de janeiro de 2020, tivemos mais um dos festejos populares que me toca mais de perto: a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim. E a emoção que a festa ainda, apesar da distância, provoca em mim é uma permanente recordação de que há sintomas dos quais nós não nos curamos: aqueles que são marcas do que nos constituiu como sujeitos do inconsciente, marcas da lalíngua de cada um. O incurável do synthome, ali onde o simbólico toca o real.

Mas, diante da amplitude e do interesse do tema de nosso próximo encontro nacional, o sintoma do qual desejo falar é o sintoma que traz incômodo ao sujeito, o sintoma que o faz buscar um outro que o escute, e que, com Freud, fundou um laço social inédito, o discurso da psicanálise.

No “Prefácio a juventude desorientada”, de Aichhorn, Freud nos fala de três modalidades de laço social marcados pela impossibilidade: governar, educar e psicanalisar. No Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise, Lacan formaliza esta impossibilidade como a própria condição para a emergência de um discurso. Ali onde nos falta o instinto do animal da natureza, ali onde o equívoco nos marca como seres falantes, seres de cultura, ali um discurso pode surgir. Do lugar de agente, aquele que agencia um discurso, busca um outro, que produza para ele (produção) algo sobre a verdade, impossível de se dizer toda.

Às impossibilidades freudianas, governar (discurso do mestre), educar (discurso da universidade) e psicanalisar (discurso do analista), Lacan acrescentou “ fazer desejar”, a impossibilidade própria ao discurso da histeria, alçando assim o sintoma a condição de laço social. Pois é a partir do sintoma, que marca a divisão subjetiva ($), que o agente deste novo discurso vai se dirigir ao outro, ao analista , a quem ele supõe um saber (S1), para que produza um saber (S2) sobre a verdade impossível de seu gozo (a).

E Lacan vai mais longe ainda: embora tenha por modelo o discurso da histeria, estar neste discurso, na posição de agente é a condição exigida para que alguém possa entrar no discurso da psicanálise no lugar do outro e poder produzir os significantes mestres que capturam seu próprio destino, ocultando o saber sobre a verdade não-toda do inconsciente. E isto, independentemente de seu tipo clínico, ou mesmo de sua estrutura.

Fica claro que não só o sujeito obsessivo, cuja base de estrutura histérica já havia sido apontada por Freud, deve estar neste discurso para empreender sua entrada em análise, mas todos os sujeitos que se aventurem na empreitada psicanalítica! Como, desde Freud, a psicanálise não recua diante da psicose, isto nos leva a compreender melhor a postulação freudiana do delírio como tentativa de cura. Na verdade, falar a um outro é sempre uma tentativa de produzir algo, uma tentativa de cura da verdade de nossas impossibilidades. O laço social do discurso da histeria é o próprio sintoma de nós todos, seres da palavra.

Que as palavras deste prelúdio sejam as primeiras sobre o encontro que neste ano teremos, aos pés da colina sagrada, muito me honra. E diante do momento que vivemos, lembrar que o discurso da histeria é o discurso que clama por mudança, pela produção do novo, me parece bem oportuno.

Vídeo sugerido pela autora: Hino do Senhor do Bonfim - Padroeiro da Bahia

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