XXI Encontro Nacional da EPFCL - BR

Prelúdio II

A CRI(A)ÇÃO DO PSICANALISTA 

Ida Freitas

 

A relação do psicanalista com o sintoma em seu fazer clínico se distingue daquela com o discurso comum, discurso do mestre, que entende o sintoma como contingente, uma deficiência a ser corrigida, e se diferencia também das concepções médicas, científicas que visam a cura do sintoma, o retorno à norma.

Se tomarmos, por exemplo, desde a formulação freudiana, a do sintoma como o substituto de uma satisfação pulsional, até a do derradeiro ensino de Lacan, que aborda o sintoma como a maneira pela qual cada um goza de seu inconsciente, o parceiro sintoma,
parceiro de gozo (O Seminário, Livro 22:RSI [1974-75]: aula de 18/02/75; inédito), fica evidente que não é sobre curar, o que está na ordem do saber fazer do psicanalista em relação ao sintoma, sua clínica, seja ela estrutural, borromeana ou da sexuação, e de sua ética e sua política, a qual é também a do sintoma. Para o psicanalista, o sintoma, mensagem e gozo, decifrável e cifrado, é necessário, é amarração, é criação que possibilita apreender o real.

Lacan destaca a função criadora do significante e, como Freud, sugere um aprender do psicanalista com o fazer poético, porém não com toda poesia, mas aquela que joga com o equívoco significante, com a homofonia das palavras, com seu potencial criativo, enfim, a poesia que se aproxima d’alíngua do inconsciente real.

Freud enaltece os poetas como aqueles que conhecem o inconsciente, pois, através deles, se pode saber mais a respeito da feminilidade. Utiliza-se do saber dos poetas acreditando que existem um método e uma lógica nessa modalidade de construção epistêmica, estabelecendo relações entre os mecanismos dos sonhos, deslocamento e condensação, com a criação poética, portanto, para Freud, sonhar aproxima-se da escrita de um poema.

Assim, podemos avizinhar o fazer do psicanalista ao fazer poético a partir do uso que ambos podem realizar com o significante, com seu potencial criativo e inovador, e que pode vir a abrir alternativas à repetição – automaton.

O poeta, o psicanalista e o inconsciente fazem uso da ambiguidade do significante, seu duplo sentido (S 1 - S 2 ), como diz Lacan em O Seminário, Livro 24: L’insu... (1976-77. Inédito). Uma topologia que deforma, torce, contorce as palavras, cria, recria, novos
significados, inventa, reinventa, transcria (como expressa Haroldo de Campos na tradução da poesia clássica chinesa) , “criação de um sujeito assumindo uma nova ordem de relação simbólica com o mundo” (LACAN. O Seminário, Livro 3:as psicoses [1955-60]. edição da Zahar, 1988, p.94).

O XXI Encontro em Salvador, terra de todos os santos e de tantos poetas, inspira a pensar o fazer poético também como sintoma, um modo de gozar com o jogo de palavras, com a homofonia, o equívoco, com a escrita, a voz.

Elegi para trazer, aqui, o primeiro de todos os poetas brasileiros, o maldito, o barroco Gregório de Matos. Assim como o próprio Lacan se situa: “eu me alinho mais ao lado do barroco” (O Seminário, Livro 20: mais, ainda [1972-73]. Edição da Zahar, 2008). Cabe assinalar que a arte barroca surge num período pós-contrarreforma, caracterizado por contrastes, oposições e dilemas. “O barroco é a regulação da alma pela escopia”, diz Lacan na mesma obra antes referenciada.

Recentemente, assisti a um espetáculo denominado “Voz”, uma cativante interpretação em monólogo do ator baiano Carlos Betão, sobre os últimos minutos do poeta, também baiano, Gregório de Matos (1636-1696), que antecederam sua viagem em navio para Angola, onde ficou exilado durante um período, retornando ao Brasil, tempos depois, porém proibido de regressar à Bahia, sua terra natal, residindo em Pernambuco até sua morte. A peça retrata Gregório de Matos prestes a partir, solitário, embriagado, discursando sobre um Brasil seiscentista, “um inferno dos negros, purgatório dos brancos e paraíso dos mulatos” (MATOS, G. de. Poemas escolhidos. Seleção e organização de J.M.Wisnick. Edição da Companhia das Letras, 2010, p.21).

Impressionante a contundência e irreverência da poesia gregoriana, em especial a satírica, contudo escutar a voz de Gregório de Matos na boca do ator baiano nos desperta para a tamanha atualidade de seus versos, sua coragem em apontar para o desgoverno, corrupção e hipocrisia do Brasil Colônia.

É fundamental conhecer sua poética que tanto fala de nossa história, de uma política que herdamos e parece ressurgir em nossos tempos, de sua arte tão tardiamente reconhecida porque incomoda, de sua voz saída de sua Boca do Inferno, ou Boca de Brasa, como era conhecido, nomes que arriscaríamos aproximar a um nome de gozo.

Uma vida marcada por rupturas até abandonar tudo para perambular pelo Recôncavo como cantador itinerante. “A virulência da sátira do “Boca do Inferno”, motivada seja pela crítica da corrupção, dos desmandos administrativos, dos arremedos da fidalguia local, seja pelo puro e cortante prazer sádico, lhe valeu a deportação para Angola”, conforme relata José Miguel Wisnick (MATOS, 2010, p.44). Calou-se o Boca de Brasa, mas, graças a seus manuscritos recolhidos e editados, temos a sorte de poder escutá-lo ainda hoje.

À cidade da Bahia

Sonetos

Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.
A ti tocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz brichote. ()
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
( = designação pejorativa de estrangeiro; grifo meu)

“Juízo anatômico dos achaques de que padecia o corpo da República, em todos os
membros, e inteira definição do que, em todos os tempos, é Bahia”, assim comenta Wisnick
na obra já assinalada (MATOS, 2010, p.41). E, por que não falar, também, de São Paulo, Rio
de Janeiro, Brasília ou de tantos lugares no País onde se poderiam aplicar, hoje, os epítetos do
Boca de Brasa? Triste Brasil!


Epílogos
1
Que falta nessa cidade? .................................. Verdade
Que mais por sua desonra .............................. Honra
Falta mais que se lhe ponha ........................... Vergonha

O demo a viver se exponha
Por mais que a fama a exalta
Numa cidade que falta
Verdade, honra, vergonha

2
Quem a pôs nesse socrócio ............................. Negócio
Quem causa tal perdição ................................ Ambição
E o maior dessa loucura ................................. Usura

Notável a desaventura
De um povo nescio e sandeu,
Que não sabe o que perdeu
Negócio, ambição, usura

3 [...]

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