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XXIV ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A criança generalizada na clínica e na cidade dos discursos
10, 11, 12 e 13 de outubro de 2024 – Brasília/DF

Prelúdio II
A criança, o infantil e a fantasia
Alba Abreu

“Onde está o menino que fui, segue dentro de mim ou se foi?” Neruda

A psicanálise é o tratamento da modalidade do gozo de um sujeito seja criança ou adulto. Os sujeitos são singulares, ainda que pertencentes a uma determinada categoria clínica. Na verdade, do que se trata é de um destino, ao menos na neurose, de uma assimilação da linguagem que tem o efeito de negativação e limitação do gozo.

Freud deduz que a perversão polimorfa[i] revela algo do gozo nas pulsões parciais, fragmentadas, que indicam a existência do traço de gozo pelo fato do sujeito ser falante. A infância é o tempo do registro do encontro do sujeito, resposta do real, com o significante. O infantil seria o que sobra nessa operação de castração, perda do gozo efetuada pela linguagem que só tem a chance de retornar como mais de gozo. A perda de gozo pela operação de castração vai se presentificar para o sujeito através da repetição. Quando o sujeito repete, algo do infantil – como raiz de seu encontro com o discurso do Outro e com as experiências de gozo – confirma os traços do gozo do Outro, restos que denunciam aí a fixação.

Colette Soler, em O que resta da infância[ii] diz que a repetição não é outra coisa senão o encontro reiterado com o encontro fracassado. Sua tese, seguindo Lacan, assevera que as marcas da infância são indeléveis e compõem o mais singular de cada sujeito, marcas que são acidentes da história de um sujeito, trauma original que causa a repetição e o sintoma, justificando, portanto, a intervenção psicanalítica. Nesse sentido, criança e adulto, partilham das fixações de gozo que induzem a contingência das modalidades de gozo corporal. Ela diz que, quando Freud identifica a eleição da neurose, se refere a uma espécie de disposição original do sujeito ante o gozo, resposta diante do real, diria Lacan. O que significa que o gozo aparelhado pela linguagem e a relação com o Outro através do objeto da pulsão sinaliza, o que mais tarde, Lacan vai apontar como o corpo que simboliza o Outro. Uma vez que a pulsão é o efeito do dizer da demanda do Outro que recorta as zonas erógenas na superfície do corpo, oásis no deserto de gozo.

Marie Jean Sauret, em O infantil e a estrutura[iii], aborda a solução ao pai decorrente de um anteparo ao gozo caprichoso, por vezes pela falta ou excesso, que assegure ao sujeito uma humanização do desejo da mãe em consonância com a lei e que consiga depurar essa satisfação de gozo em falta, afixando na fantasia ($^a) que acolhe e sustenta o desejo. Essa satisfação da qual a fantasia recobre o rastro e ao mesmo tempo recupera um fragmento desse gozo que é ineliminável, apesar de fixar o lado insatisfatório do gozo, relança o desejo. A heterogeneidade entre gozo e significante presente na fantasia tem no sintoma a marca dessa falha, pois quando a fantasia se abala o sintoma se inflama.

O sujeito é separado de seu gozo e recuperar o gozo perdido independe da maturação desenvolvimentista cronológica. Depende mais de como ele explora os tempos de efetuação da estrutura: instante de ver, do confronto com o gozo; tempo de compreender; deixemos o tempo de concluir, já que só seria possível depois do encontro com o parceiro sexual. Na análise com crianças, a “falta do tempo de concluir” seria índice do que devemos entender como mais importante na diferença entre criança e adulto. Segundo Colette Soler[iv], “não seria no nível do Eu nem da relação com a realidade, mas no nível da relação ética do sujeito com o gozo que experimenta”. Ou seja, se o sujeito pode tomar pra si a responsabilidade de seu gozo e as consequências de assumir a dimensão da falta sem encarná-la enquanto objeto que viria completar a mãe. O analista pode permitir ao sujeito que busca uma análise na infância ir conforme seu ritmo, deixando inacabado o que ainda está por vir, sem gozar às suas custas, mesmo quando esta criança se oferece ao gozo. Nesse sentido, Soler[v] conclui que “Lacan mantém a ideia de que uma criança não é um adulto apesar do crescimento do regime da criança generalizada…consequência da organização globalizada do capitalismo”. Como disse Zilda Machado[vi] na mesa preparatória, no mundo contemporâneo somos todos objetalizados, consumidores manipulados pelas estratégias de mercado.

Podemos considerar a infância como a história que o sujeito organiza em torno de sua filiação, sua localização no mundo modelada pela estrutura significante e da qual ele pode relatar seus amores com a verdade, diria Freud. Por outro lado, o infantil não se articula no significante porque provém do impossível, da rasura e apagamento. Portanto, a psicanálise é convocada a produzir separação, para dizer borromeanamente, suturas e emendas, no sentido de degelar o que no sujeito ficou congelado na infância e, permitir outra amarração do nó, mobilizando o que do traço infantil se inscreveu e persiste.

Referências bibliográficas:

[i] Freud, Sigmund, Três ensaios da teoria da sexualidade, 1905, em Obras completas, Rio de Janeiro: Imago, 2006, Volume VII, p. 180.
[ii] Soler, Colette, Lo que queda de la infância – Buenos Aires: Letra Viva, 2014 trad: Pablo Peusner, p. 67.
[iii] Sauret, Marie-Jean, O infantil e a estrutura – São Paulo: EBP, 1998, p. 22.
[iv] Soler, Colette, Lo que queda de la infância – Buenos Aires: Letra Viva, 2014 trad: Pablo Peusner, p. 120.
[v] ibid, p. 111.
[vi] Machado, Zilda, 1ª mesa preparatória para o XXIV Encontro Nacional da EPFCL, 9/6/2024.

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