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XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026

Prelúdio I
Um Encontro que se renova
Francina Evaristo de Sousa

Notei que descobrir novos lados de uma palavra era o mesmo que descobrir novos lados do Ser”
Manoel de Barros [1]


“Pois no intervalo que vai da fala que ele desconhece ao pensamento que ele acredita produzir, o homem se enrosca…”
Lacan [2]

(Minha boca me derrama?)” – Manoel de Barros

Em novembro, após doze anos, mais uma vez o Fórum do Mato Grosso do Sul hospedará um Encontro de nossa Federação. Na verdade, naquele momento a Federação era ainda Associação, e para nosso Fórum foi a primeira vez organizando um encontro nacional. Diz-se que a primeira vez a gente nunca esquece. Estranho escrever isto para aqueles que fazem da lida com o recalque alheio seu ofício. Muitas primeiras vezes são esquecidas, cabe ao analista conduzir o sujeito até que ele possa levantar o véu. Mas o que é isso? Estou divagando!

O ponto é nosso Encontro, e diante da tarefa de abrir, não pela primeira vez [3], a série de convites como parte de preliminares para o momento de conclusão, o Encontro em si, iluminou-se para mim a imagem de Freud lendo um tratado de pintura. A arte e os artistas muito ensinaram à Freud, que frequentemente buscava neste campo a boa metáfora para fazer passar sua novidade. Neste tratado, de ninguém menos que Leonardo Da Vinci, Freud encontra um belo modo para dizer de sua inovação clínica [4]: ao contrário do método sugestivo, no qual o terapeuta, tal qual um pintor, acrescenta algo ao discurso de seu paciente, o analista seria aquele cuja arte de lidar com o bloco maciço de palavras que estimula aquele o qual recebe a livremente derramar, é a do escultor.

Maior que o infinito é a encomenda” – Manoel de Barros.

Uma psicanálise não acrescenta, é uma prática de redução e subversão: da busca pelo ilimitado, sob o manto da felicidade [5], ao limite imposto pela castração, que é para todo ser falante. Entretanto, uma análise permite ao sujeito viver tal limite não como tragédia que se repete, mas como uma música sem refrão, tocada pelos acordes do desejo. A neurose adormece, uma análise acorda, faz pensar com os pés. Sob uma condição: o amor, a transferência. É que nossa prática aponta para o vazio mas sustenta-se na crença que o analisando dirige àquele que supõe um suposto saber: que o livre de seus sintomas e lhe devolva a harmonia nunca antes experimentada [6]. Pois como fazer passar e manter viva essa experiência, transmitir a partir do saber pouco mas suficiente que se extrai de uma análise, esse saber fazer com o sintoma, saber fazer-se enquanto sinthoma?

Velhas questões que não se extinguem e se repetem de forma renovada, a cada tentativa de resposta. A sobrevivência da clínica psicanalítica, donde provém a crítica e os avanços em seu corpus teórico, depende de sua transmissão. Mais que um conteúdo, o ensino da psicanálise transmite um limite, o limite, a castração. Como manter viva uma práxis que possa existir no mundo ao ponto de suscitar em alguns o desejo de “escolher a análise como forma de encontrar uma bússola para sua existência” [7]?

(Tirei as tripas de uma palavra?)” – Manoel de Barros.

Levei tempo para encontrar uma voz própria nesta escrita, passei tempo a perambular em torno do como narrar o que gostaria de aqui dizer. A herança que o sujeito insiste em não reconhecer para não se obrigar a assumi-la é a falta, mas a verdade é que sempre falta o complemento àquilo que se pretende dizer. O encontro com a psicanálise é sempre um novo encontro que nos convoca à invenção. A psicanálise é esta que corre sempre o risco de recalque pela civilização e Lacan, em 1978, ensina assim: “tal como agora chego a pensar, a psicanálise é intransmissível. É bem chato. É bem chato que cada psicanalista seja forçado – pois é preciso que ele seja forçado – a reinventar a psicanálise.” [8]

Transmitir é um certo modo de marcar um percurso, e os diferentes estilos de transmissão nos mostram que há diferentes caminhos para se chegar a Roma, brinco aqui com o ditado popular para animá-los a seguir, com suas palavras, corpo e escuta, no mergulho nesse rio turbulento e de curso incansável, mas que requer trabalhadores decididos na manutenção de suas margens, chamado psicanálise. Vale mais uma vez dizer: neste novembro, após 12 anos, o Fórum do Mato Grosso do Sul estará de braços abertos para recebê-los em um novo Encontro. Convido-os a fazê-lo Bonito.

 

[1] BARROS, M. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2013.
[2] LACAN, J. Carta de dissolução in: Nos confins do Seminário. Rio de Janeiro: Zahar, 2022, p.55.
[3] SOUSA, F A insustentável leveza do amor. Prelúdio para o XV Encontro Nacional da EPFCL-Brasil, 2014. Este e os demais prelúdios, disponível em: http://www.projetofreudiano.com.br/publicacoes/preludios_xv_encontro_nacional_epfcl_brasil.pdf
[4] FREUD, Sigmund. Sobre psicoterapia. In: Obras completas, volume 6: três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria (“O caso Dora”) e outros textos (1901-1905). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. p. 336-337
[5] “Primeiramente, será que é o final da análise o que nos demandam? O que nos demandam, é preciso chamá-lo por uma palavra simples, é a felicidade.” LACAN, J. O Seminário livro 7: A Ética da psicanálise. Versão brasileira de Antônio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988, p.350.
[6] Como quem olhasse o analista e dissesse: “e é só você que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi” – trecho da canção Indíos, da Legião Urbana – modo de dizer da nostalgia pelo objeto perdido.
[7] IZCOVICH, L. (Org) A prática de Lacan. São Paulo: Aller, 2026, p.8.
[8] LACAN, J. (1978). Conclusões do Congresso sobre a transmissão. Publicado em Petits Ecrits et conférences, p. 175-176. In: Documentos para uma Escola II- Lacan e o passe. Letra Freudiana- Escola Psicanálise e transmissão, 1995, ano XIV, n. 0, p. 65-67. Disponível em: https://appoa.org.br/correio/edicao/246/a_transmissao_encerramento_do_9_congresso_da_escola_freudiana_de_paris/222 (acessado em 15/04/2026).

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