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XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026

Prelúdio III
Cem anos do texto A questão da análise leiga: a ética da psicanálise comporta sua regulamentação?
Representantes da EPFCL-Brasil no Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras

A clínica psicanalítica hoje: transmissão e ensino! Eis o tema que escolhemos em nossa comunidade analítica para nortear as pesquisas e intervenções para o XXVI Encontro Nacional da EPFCL-Brasil na cidade de Bonito-MS. O tema escolhido retoma, francamente, o XXV Encontro Nacional do ano passado em Maceió – Formação do analista: urgências da nossa época – uma vez que tratar da formação do analista é se interrogar pela análise do analista, pela sua clínica e pelo que dela se transmite. Além do tema do XXVI Encontro Nacional recuperar o ano anterior ele também faz laço com o que iremos trabalhar, em poucos dias, no XIII Encontro Internacional da IF-EPFCL, em São Paulo – A ética psicanálise e as outras – e será por este caminho que iremos trilhar o presente prelúdio a partir da pergunta: a ética da psicanálise comporta a regulamentação da psicanálise?

Em 2026, comemoramos o centenário de “A questão da psicanálise leiga”, texto que serve como principal argumento para a criação, nos anos 2000, do Movimento Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras. A orientação freudiana declara que o psicanalista é leigo em essência, na medida em que a formação necessária ao seu exercício se obtém a partir da experiência da análise pessoal do analista, do estudo teórico entre os pares e do tratamento dos casos em atendimento. Cem anos depois e ainda permanece atual a advertência freudiana de que as possibilidades para a sobrevivência da psicanálise vão além de regulamentações ou proibições, pois dizem respeito àquilo que lhe é próprio (Freud, 1926).

Se a Escola de Psicanálise, tal como proposta por Lacan, visa garantir que haja psicanálise, e o faz pela via do dispositivo do passe, é porque a ética da psicanálise impõe um insabido – S(Ⱥ) – que inutiliza toda e qualquer regulamentação. Haver psicanálise é fazer do sintoma a posição revolucionária (Lacan, 1969/2001, p. 381) que se coloca no caminho do discurso dominante cujo lema, nesse caso, é a regulamentação que visa ao “todos iguais”, “todos andando no mesmo ritmo”, “todos marchando conforme a música”. Nossa Escola, pelos Princípios que a constituem, tem por objetivo transmitir a experiência original na qual consiste a psicanálise, para, disso, elaborar um saber, de modo a sustentar a formação dos analistas cuja qualificação deve poder demonstrar na pólis. É nisso que se esforça: afinar o que se transmite da psicanálise e o que dela perdura. Somente em seu âmbito a Escola de Lacan admite alguma regulação, pois tal coincide com os próprios princípios e objetivos da Escola. Estes foram e são construídos a partir dos próprios efeitos do discurso psicanalítico, cujo modo de operar advém da transmissão da psicanálise que se dá na formação psicanalítica, insuspeita e ignorada pelos outros discursos que operam de outra forma nos laços sociais. Daí também serem inadmissíveis quaisquer meios de regulamentação externa, pois seriam igualmente externos à psicanálise, uma vez que a ética desta é subversiva e visa ao singular sendo, portanto, avessa a qualquer ordenamento que pretenda submetê-la a uma causa ou medida comum.

Quanto à transmissão e ao ensino, jamais deveriam ser confundidos com a partilha de um conjunto de conhecimentos reprodutíveis ad infinitum em cursos de graduação ou similares, tão comuns atualmente em modalidades presenciais e virtuais. As teorizações de Lacan conduzem-nos em outra direção. Em …Ou pior, por exemplo, ao afirmar que “o matema é própria e unicamente aquilo que se ensina” e que “não se ensina senão o Um” (Lacan, 2012, p. 146) que implica o conjunto vazio, ele indica que o ensino da psicanálise não visa a uma comunicação de conhecimentos textuais acumulados, mas à transmissão de algo do percurso de uma escrita capaz de preservar a referência ao real. Eis um modo de trabalho que não prescinde da intensão. Ainda assim, tal ensino não dispensaria a experiência da análise pessoal na formação do analista. Quando Lacan destaca que o que se pode ensinar é o matema e o Um, ele evidencia o ponto em que o saber implica o impossível, impedindo que transmissão e ensino sejam convertidos em pedagogias e performances midiáticas.

Nessa perspectiva, a defesa da análise leiga e a recusa da regulamentação decorrem da própria ética da psicanálise. Como já dito, a formação do analista permanece inseparável da experiência da análise, da elaboração permanente entre pares, da supervisão clínica e, em acréscimo, do trabalho de Escola e da responsabilidade de cada psicanalista pelos efeitos de sua prática. É nesse compromisso ético que os psicanalistas devem se implicar em nossa época.

 

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. A questão da análise leiga: conversações com uma pessoa imparcial (1926). In: Obras completas, vol. XX: Presentación autobiográfica. Inhibición, síntoma y angustia. ¿Pueden los legos ejercer el análisis? y otras obras (1925-1926). Tradução de Luis López-Ballesteros y de Torres. Buenos Aires: Amorrortu, 2004.

LACAN, Jacques. O ato psicanalítico – Resumo do Seminário de 1967-1968 (lição de 10 junho de 1969). In: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001, p. 375-383.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 19: …Ou pior (1971-1972). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

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