XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026
Prelúdio IV
A clínica psicanalítica e a transmissão
Adriana Grosman – Psicanalista membro do fórum SP, AME EPFCl, CIG (2025-2026)
Muito interessante sair de um encontro em universo internacional, sobre ‘a ética da psicanálise e as outras’ na grande São Paulo e avançar para Bonito, mergulho nas águas e no ‘universo particular’ da nossa língua, o português, para tratar da ‘clínica psicanalítica hoje: transmissão e ensino’ .
Nos banhamos na língua, no campo universal da linguagem e nosso material de trabalho é a palavra, com ela fazemos ficção, isso para evitar um “encontro essencial, que se trata do que a psicanálise descobriu- de um encontro marcado, ao qual somos chamados, com um real que escapole”1, encontro do real, repetição que está para além do autômaton, como uma saliência, que salta, tiquê.
E fazendo uso da palavra, para falar da ética da psicanálise, inventei: é-tique, porque é deste encontro que se trata, “nenhuma práxis, mais do que a análise, é orientada para aquilo que, no coração da experiencia, é o núcleo do real”2.
Na sua proposta ética Lacan estava preocupado em fazer práxis da teoria, inverteu o rumo das coisas, e ainda reforçou a importante ligação entre a clínica e a instituição: ele inventou o passe.
Desta forma convida o analista a dar provas de seu percurso, o passante é aquele que idealmente finalizou a sua análise, e pode transmitir algo do ‘impossível’, um fisgamento, próprio do encontro com o real que pode atingir um ou vários que se comovem com aquilo que lhes chega no trabalho de cartel do passe, através dos passadores, aqui nessa engenharia impressionante desse dispositivo do passe.
Dispositivo que contempla muitos impasses, inclusive a função do passador que é sorteado e está num tempo diferente do passante, um intermediário se podemos assim dizê-lo, já que conta com uma andada suficiente para escutar algo da passagem de um analisante à analista, mas ainda no impasse da verdade e do real.
O que dizer? Pergunta importante do passador, também analisante, à proposta ao ‘que se diga’ do analista, que o designa passador. Um fazer da clínica psicanalítica hoje (e não só), que reforça a pergunta sobre a transmissão.
Lacan adverte, apontando o erro de Freud, que pensava que contra a resistência só havia uma coisa a ser feita, a revolução, e assim mascarava completamente aquilo de que se tratava, isto é, a dificuldade bem específica para fazer entrar em jogo uma certa função do saber. É essa consistência freudiana do saber, na forma de “aquele que sabe que sabe sou (é) eu, deixa clara que esta referência ao Eu (moi) é secundária em relação a que um saber se sabe, e a novidade aqui, me refiro anos 70, o que a psicanálise revela, é um saber não sabido por si mesmo”3.
O exemplo dado por Lacan no Seminário 19 seria “a fala que diz a verdade quando diz “eu minto”, é o único caso que se tem certeza de que ela não mente porque ela é suposta sabê-la”4. Este novo estatuto do saber é o que deve acarretar um tipo de discurso notadamente novo. Desde Função e campo da fala, o que prevalecia na fala era a sua função, e, para a linguagem, o que prevalecia era o campo, a fala estando, assim, no lugar do que se chama de verdade e, ao mesmo tempo, com estrutura de ficção, por estar na linguagem, ou seja, também uma mentira. De outro modo, o que traz a diferença aqui, um salto, quando diz que é possível que se diga a verdade sem o saber – trata-se do S(A).
É impossível não pensar o saber como uma acumulação de significações, imersos na crença e sempre tentados a fixar alguns sentidos fundamentais. Todos somos de alguma forma tolos, pois é impossível transpor os impedimentos da significação. A única forma de ação que se coloca como verdade, e que vai evidenciando a importante diferenciação entre o que é falado, seria o dito e o dizer. Dizer que se infere dos ditos, e que traz a questão de como ter acesso a esse dizer, que seria ter acesso ao abismo próprio da alingua. Com a frase lógica – ‘eu te peço – que recuses – o que te ofereço – porque não é isso’, Lacan põe o analista advertido de sua tolice. Os psicanalistas são responsáveis pelo discurso do analista, levando em conta que o sujeito é resposta do real. Neste sentido é impossível dizer tudo, mas que se diga!
Falando, o sujeito goza, põe em cena os “mistérios do corpo falante”, nosso corpo é um mistério e é falante, isso nos põe num paradoxo, digo sempre mais do que sei. Isso que contamos em análise, a repetição, a conta que não fecha, justamente porque tem o real ai, até o momento em que algo a pare, quando o sujeito pode dizer: “não é isso”; a linguagem aparece como uma elocubração de todo esse não saber de alíngua, tenta-se saber algo deste que sempre nos escapa, diz Lacan no Seminário XX5.
Uma clínica pode levar a este momento, uma experiência da é-tique, algo novo produzido ai, relação que termina produzindo o desejo de analista, ou um analista que sabe que não é de reciprocidade que se trata, ao contrário, não espera mais nada do outro: Que tipo de amor é este?
Tem consequências saber-fazer com isso, com o amor que resulta na ética, forma de tomar o outro em análise sem saber, para a partir desta descoberta, poder transmitir.
Quem se arrisca no passe a dizer algo?
O que faz ser uma invenção impressionante este dispositivo do passe, passar pela experiência de algo dizer para ‘reinventar o modo como a psicanálise pode durar’.
Convido todos vocês a se arriscarem a um dizer da clínica, um escrito, ou simplesmente ouvir, estar em Bonito, logo mais.
1 LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatros conceitos fundamentais da psicanálise (1964), 2ª ed., Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 55
2 Ibid, p.55
3 Lacan, Jacques, O saber do Psicanalista (1971-1972), trad: Correa, Fonseca, Frej – PE – publicação para circulação interna – centro de estudos freudianos do recife, p. 17
4 Ibid, p. 18
5 Lacan, Jacques, Encore (1972-1973), Escola letra Freudiana, Ed. não comercial, 2010, p. 267
