XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026
Prelúdio IV
Que tempo d-escola?
Pedro Moacyr Brandão Jr
Na experiência contemporânea em nosso dispositivo de Escola – a Comissão Local Epistêmica de Acolhimento e de Garantia (CLEAG) – escolhi fazer do tempo a questão deste prelúdio. Na clínica psicanalítica, é na atualização da realidade do inconsciente pela transferência1, que o analista encontra, a cada vez, as condições para construir a direção do tratamento. Também é diante dos desafios do mundo de hoje que a psicanálise se mantém viva. Uma Escola gira em torno da garantia, de cada (re)invenção que os testemunhos do passe podem nos transmitir, fazendo comparecer aquilo que concerne ao psicanalista na cidade dos discursos.
Outras duas funções são inerentes à CLEAG: a epistêmica e a de acolhimento. Nossa episteme chama-se cartel e traz ao baile mais do que uma aprendizagem teórica; propõe um tratamento aos efeitos de grupo. Sua duração é limitada e implica, desde o início, sua dissolução. Lacan nos convoca: “vamos. Reúnam-se vários, grudem-se o tempo necessário para fazer alguma coisa, e depois se dissolvam para fazer outra coisa (…) antes de ficarem grudados irremediavelmente”2. Trata-se de uma conjunção provisória, cujo fim precipita um produto como efeito desse tempo de produção. Nessa operação, o ensino é furado pela transmissão, por isso a Escola, através do cartel, ocupa-se mais do saber do que do conhecimento.
Essa é a orientação desde o Ato de Fundação, em 19643. Desse modo vemos as funções se permutarem – não de qualquer maneira, mas pelo voto dos membros de nossa comunidade, democraticamente. Foi a partir da função de acolhimento dos pedidos de ingresso como membros de Escola, que a questão do trabalho passou a impor-se como ponto de interesse para mim. Desde o início desse biênio recebemos diversas solicitações. Inicialmente, chamou-me a atenção a frequência com que a noção de trabalho comparecia nos relatos. Por essa via a lógica do tempo começou a se delinear. Cada pedido demarcava um momento específico de endereçamento de entrada.
Lacan4 convoca trabalhadores decididos a sustentar sua Escola, e frequentemente se recorre a ele para dizer algo sobre o lugar da Escola e do Campo Lacaniano para cada sujeito. Na escuta da singularidade dos pedidos, algo se delineava a esse respeito5: não se tratava de qualquer trabalho. Alguém pode localizar-se como trabalhador decidido e, ainda assim, situar-se num tempo distinto daquele que em orientação de Escola. Seja para alimentar a expectativa de encontrar nela um acúmulo de conhecimento sobre o ser do psicanalista; ou mesmo para que o saber compareça como princípio de exercício de poder, de mestria; ou por qualquer outro motivo. Portanto, seria preciso verificar ali a transmissão de uma lógica de cartel.
Pouco a pouco tornou-se evidente que esse funcionamento implicava também uma ética. Tratava-se de uma posição diante do real, transmitida em cada entrevista a partir de experiências nos cartéis, dos efeitos nos giros nas análises pessoais, bem como das possíveis dissoluções dos grupos nos Fóruns. Experiências, muitas vezes vividas como surpresas, que deixavam cair algo, desintegravam a consistência do que fora instituído.
Um tempo d-Escolagem.
A pergunta então retornava: qual o tempo próprio da Escola? Ou, quando se pode dizer que alguém está na Escola?
Sabemos que não é o tempo do capital, nem o das ofertas de cursos que produzem um eterno aluno. Multiplicam-se as instituições que prometem uma “formação” infinita, sempre propondo uma nova certificação, uma nova etapa a ser consumida. Até os professores, que o marketing anuncia como estando “na crista da onda”, são convocados a permanecer alunos. Formação permanente, porém, não é educação infinita.
O tempo da psicanálise é outro. É demarcado pelo corte, cujos efeitos só depois podem ser extraídos. Só há um depois se houver algo que aponte que houve um antes. Escutar, na psicanálise, é introduzir um corte. A escuta passa por aquilo que (h)ouve na história de alguém, mas o analista sabe que é justamente ali, onde nada parece ouvir-se, que um sujeito pode advir. É por isso que escuta. Na lógica do tempo da psicanálise há escuta. Talvez a cultura popular consiga dizer isso com uma simplicidade que frequentemente escapa às amarras teóricas. Como canta Secos & Molhados:
Se eu não entender, não vou responder.
Então, eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então, eu escuto
Fala (…)
Ao instante de ver, sucede um tempo de compreender, para só então concluir6. O fim de uma análise se sustenta nessa lógica: corte no tempo, passe. Uma questão ética para a Escola, práxis de sua teoria7, e por isso Lacan fala em gradus8 e não em hierarquia. A estrutura dos cursos infinitos eterniza a posição de aluno e as fixa no eixo binário professor-aluno. O gradus lança no jogo uma outra travessia, moebiana.
Na Escola trata-se de se desformar ao extrair das formas aquilo que é efeito da experiência analítica, dando lugar ao que cada um pode transmitir na psicanálise em intensão e extensão. No Campo Lacaniano os distintos momentos em torno da causa analítica se desdobram nos engajamentos como membros de Fórum ou membros de Escola. Aos Fóruns cabe sustentar a extensão da psicanálise, orientada por aquilo que se depreende na intensão das análises e das experiências de Escola.
É nesse horizonte que se situa nosso próximo Encontro Nacional. Nele, poderemos interrogar sobre o trabalho d-Escola diante das novas relações dos sujeitos com o tempo. Recolocando em debate a direção do tratamento, revisitando a lógica do ato analítico e renovando a pergunta sobre a formação do analista em nossa época.
Vamos então d-escolar um pouco mais em Bonito! E colocar à prova aquilo que a clínica psicanalítica pode hoje transmitir. Não para colarmos em respostas definitivas, mas para manter-nos em trabalho. Afinal, talvez a Escola exista precisamente nesse tempo que ela não cessa de se (re)inventar.
1 Lacan, J. (1988). Seminário. Livro 11: os quatro conceitos da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
2 Lacan, J. Senhor A. 18 março de 1980.
3 Lacan, J., “Ato de fundação”, Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.
4 Lacan, J., “Ato de fundação”, Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003.
5 Brandão Jr, P. M. Trabalho descola: lógica de cartel, ética da psicanálise. Folhetim NoNada, Nossas Vozes. Fcl Bh, 2026.
6 Lacan, J. (1998). O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada. In: J. Lacan. Escritos. (pp. 197-213). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor
7 Os princípios diretivos para uma Escola orientada pelo ensino de Sigmund Freud e Jacques Lacan. In: Catálogo da IF-EPFCL in Catálogo da IF 2025-2026
8 Lacan, J. (2003). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In J. Lacan. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
