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XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026

Prelúdio VI
A castração é da ordem do ensino
Francisco Paiva Filho – FCL-Fortaleza, membro da EPFCL

“A castração, primeiro é preciso admiti-la.”
Jacques Lacan1

Recebi com alegria o convite para escrever este prelúdio do XXVI Encontro Nacional da EPFCL-Brasil “A Clínica Psicanalítica Hoje: Transmissão e Ensino” a ser realizado em Bonito-MS. Além da pertinência do tema, acompanhar o trabalho dos colegas do FCL-MS, me deu um fôlego a mais para escrever este trabalho.

Para que serve uma análise hoje num mundo em crise? Além disso, o que possibilitaria uma análise nesses tempos em que o capitalismo foraclui as coisas do amor? Se os laços de amor são frágeis, não se sustentam, como atravessar uma experiência de análise, que requer, de partida, o amor de transferência?

Nguyên (2017/2026) diz que as condições de análise mudaram, porém menos pelas modificações observáveis na clínica do que pela intervenção de Lacan no campo da análise e as novas avenidas que ele traçou ou deixou esboçadas. É preciso insistir na maneira como Lacan levou a sério continuar a partir de onde Freud parou, trazendo respostas que permitem, uma nova maneira de tratar o tempo analítico para mensurar sua urgência, a pressa necessária.

Para os psicanalistas a psicanálise não pode ser um assunto encerrado, afirma Lacan em 67. E que a origem de seu ensino é muito simplesmente a linguagem, nada mais. Esse era o ponto comum presente desde as primeiras obras de Freud e que ele conseguiu extrair.

Assim, é a partir da linguagem que Lacan faz seu percurso, localizando aí o sujeito do inconsciente e consequentemente seu desejo, que coloca em função o Outro e o desejo do Outro. O Outro que aqui deve ser definido como o lugar da fala. Não ali onde a palavra é emitida, mas ali onde assume o valor de palavra. Palavras necessárias para o trabalho da análise, mas que encontram sempre o limite da meia-verdade. Impossível dizer tudo.

Essa incompletude, a partir da orientação do desejo, coloca em jogo a castração. Sem castração não há desejo. Desejar supõe assumir a castração, ou seja, a divisão do sujeito. É nessa divisão que podemos localizar aquilo que repercute do saber do sexual traumático, que não consegue ser formulado na estrutura. É aqui que Lacan aponta o dizer de Freud ou mesmo o dizer extraído de uma análise: não há relação sexual. Tal dizer, embora não seja dito, pode ser cernido, cingido, delimitado a partir desse impossível.

Lacan consegue chegar nesse ponto pela via da lógica. Consegue escrever esse impossível em termos da fórmula da sexuação. Isso leva Nguyên (2025, p.76) a dizer que a castração não é da ordem do sangramento (saignement), mas do ensino (enseignement).

O complexo inconsciente de castração, diz Lacan (1957/1998) tem função de nó na instalação, no sujeito, de uma posição inconsciente. Importante destacar que o nó não é dado pelo falo, mas pelo complexo de castração. Há diferentes maneiras de viver a castração, genéricas, variantes e até singularidades. Como diz o poeta baiano:

“E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim “

Aprendizado total impossível, mas que aponta para o paradoxo de, partindo do desejo – e portanto da castração – apreender algo, escrever algo, do que há e, principalmente, do que “não há em mim”.
Assim, é importante salientar que o que se ensina em uma psicanálise não é da ordem do conhecimento, mas de uma lógica que envolve a castração. Uma lógica que inclui o não-todo fálico. Ensinar é assumir essa tarefa por sua conta e risco, é abster-se da posição de mestre. Quem ensina está na posição de analisante. E o que se analisa nesta posição de analisante é o “eu não quero saber nada disso”. Isso implica que uma análise leve um sujeito a cernir sua causa de horror ao saber (LACAN, 1973/2003).

A castração assim seria condição para ensino na psicanálise. Tema que nem sempre se mostra transparente, fácil de abordar, daí a orientação para a própria análise, porque o desejo é algo que não se pode ter, não se trata de um objeto ou órgão manejável. Assim, é a falta que cria as condições do amor, as condições para uma análise ainda hoje.

A mordida do inconsciente não deixa a ferida aberta, sangrando, mas, em seu lugar, uma cicatriz, a castração, que funciona como marca para que estejamos advertidos. Marca que aponta para a solidão, para o real do saber e não poder compartilhá-lo. Isso não retira o analista do mundo, pois é justamente por isso, por esse certo isolamento, que ele se torna indispensável, ao reestabelecer os laços a partir de um novo lugar.

Que em Bonito-MS, então, esses laços sejam vividos a partir disso.

 

REFERÊNCIAS

LACAN, Jacques. A significação do falo. [1958]. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 692-703.
LACAN, Jacques. Meu ensino. [1967-1968]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.
LACAN, Jacques. Nota italiana. [1973]. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 311-315
NGUYÊN, Albert. Quando só restam as palavras…: psicanalista ao som da sua época. [2017]. São Paulo: Larvatus Prodeo, 2026.
NGUYÊN, Albert. En attendant Lacan… Paris: Éditions Stilus, 2025.

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