XXVI ENCONTRO NACIONAL DA EPFCL-BRASIL
A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO
Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026
Prelúdio II
Ainda sobre a questão da identidade
Andrea Rodrigues
“…que antes renuncie a isso portanto quem não conseguir alcançar em seu horizonte a
subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo de tantas vidas quem
nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico.
Que ele conheça bem a espiral a que o arrasta sua época na obra contínua da Babel e que
conheça sua função de intérprete na discórdia das línguas.”
(Lacan, Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, p.322)
Ao concordar em escrever um prelúdio para o nosso encontro Nacional, percorrendo os subtemas sugeridos, encontrei o da identidade, questão tão atual e ao mesmo tempo bem antiga, mas que ganha novas caras. Eu não o abordo sem cuidado. Como pode a psicanálise contribuir para esse debate? Vários autores de nossa comunidade debruçaram-se sobre o tema, sendo Colette Soler e Luis Izcovich somente dois deles. A questão dita da raça, ou do racismo, é apenas uma delas, apesar do protagonismo que o fato adquire no nosso país, sendo os temas da mulher, do transsexual, do homossexual e tantos outros também bastante presentes.
De acordo tanto com Soler quanto Izcovich, podemos isolar basicamente dois tipos de identidade: a primeira seria a identidade de alienação, que tem relação com o significante, é forjada seguindo os critérios do Outro e é sobre o que a análise opera — embora seja necessária para a entrada em análise. O sujeito se identifica a um grupo, ou uma comunidade pois consente num gozo em que “a posição subjetiva vai ao encontro de uma posição coletiva“. O Outro é o lugar onde se coloca para o sujeito a questão de sua existência, de seu sexo e de sua história. Essa identidade tem a ver com a relação com o significante, pois o sujeito a forja de acordo com significantes vindos do Outro, e nos quais ele se reconhece: sou mulher, sou negro, sou homossexual ou mesmo sou brasileiro — ou não. “O sujeito não “é” isso ou aquilo. Ele é um vazio, um furo na linguagem, deslizando nas cadeias significantes ele é aquele significante “pulado” na sequência de significantes do Outro. Há alguns significantes do Outro, porém, que têm uma força de determinação e se impõem como um imperativo que o sujeito deveria acatar para se definir. Estes se apresentam como um “Tu és…”. São significantes que etiquetam e mortificam o sujeito e aos quais ele se identifica. É possível, também, não consentir com determinado tipo de gozo e isso levar a mudanças, por exemplo, de cidade, de estado ou até mesmo de país — uma cultura diferente, modos diferentes de gozo. Ainda permanecemos, porém, no âmbito do Outro.
O segundo tipo seria a identidade de separação, que tem a ver com o que Lacan chama “a diferença absoluta”; os S1 que o sujeito desfila na sua análise deixam a posição de comando. Seria, como diz Izcovich, a identidade de gozo no que ela tem de único, mas sem que o sujeito se tome por exceção mas quando ele deixa de acreditar nos seus significantes mestres e para de esperar o surgimento de mais saber sobre seu sintoma. Quando este adquire o estatuto de significante isolado da cadeia, de que Lacan fala desde o seminário sobre a carta roubada, onde ele define a letra como puro significante fora da cadeia, estamos no âmbito da identidade de separação, uma identidade que seria própria à travessia de uma análise. Embora não seja de Lacan, esse é um termo forjado por Colette Soler e para ela essa expressão é fiel à tese lacaniana de que a identidade visada no final da experiência psicanalítica é uma identidade que não passa por nenhuma identificação, é uma identidade que não toma emprestado qualquer traço do Outro.
Lacan, por seu lado, previu a escalada do racismo, e em Televisão ele adverte: “deixar esse Outro entregue a seu modo de gozo, eis o que só seria possível não lhe impondo o nosso, não o tomando por subdesenvolvido.” Ele nos informa no seminário sobre O Avesso da Psicanálise que havia observado, ao receber em análise três médicos que vinham do Togo, antiga colônia francesa, que “seu inconsciente funcionava segundo as boas regras do Édipo”. Essa é uma forma de capitalismo que se chamou imperialismo e que impunha as leis da colonização a ponto de transformar o ideal do colonizador em ideal de todos. No Brasil não estamos longe disso. Num debate mais ou menos recente ao qual assisti no YouTube, um colega que se definia eufemisticamente como “moreno” relatou como, depois de um bom tempo de análise, pôde elaborar que era, na verdade, negro, ao que o analista respondeu: “finalmente!” — relato isso aqui uma vez que o próprio sujeito contou o fato publicamente. Outro exemplo: escutei recentemente alguém (um homem) afirmar que não tinha problema em dizer que se relacionava com outro homem, mas que só recentemente ele podia se declarar homossexual.
Tem ainda o caso daquela jovem mulher, que em virtude de sua história, duvidava que pudesse não só ser amada pelo seu companheiro mas que pudesse sustentar seu interesse por ela.
Também existe o caso do sujeito que, devido a sua origem pobre, levou um tempo para superar o mal-estar de frequentar lugares de maior poder aquisitivo, como o local de trabalho e o consultório da analista.
Todos são casos de sujeitos que se identificavam com determinados significantes, e mesmo ao ter essas identidades modificadas, isso ainda não era o suficiente. É preciso atravessar uma análise até o ponto de poder prescindir do Outro, onde se possa ir além da identidade a uma comunidade da qual se saiu, conservando-a, mas não se limitando a ela. Lacan nos propõe a abertura ao diferente, Héteros, que as mulheres encarnam com seu Outro gozo — daí elas precisarem ser caladas, cobertas, serem belas, recatadas e do lar (pra quem se lembra desses adjetivos usados por uma revista semanal para qualificar a primeira dama da época…) — mas também o estrangeiro, o imigrante, o negro, o homossexual e o trans, “gente esquisita”, como diz o rock antigo, com seus gozos desconhecidos.
Nesses nossos tempos de debates identitários, o arsenal que Freud e Lacan nos legaram ainda dá conta dessas questões? Há quem considere que a colonização se diferencia das operações de alienação-separação próprias da constituição do sujeito pelas características que o outro adota. O colonialismo, ao buscar criar novos mercados consumidores, é um braço do capitalismo.
Por outro lado, a ética da psicanálise é antirracista. Sidi Askofaré, nosso colega da França, ao ser convidado para proferir uma conferência online no âmbito do Fórum Rio uns anos atrás, modificou o título proposto de Psicanálise e racismo para Psicanálise OU racismo. A professora Isildinha B. Nogueira, num debate disponível no YouTube, afirmou que somos atravessados pelo racismo no inconsciente pois não há um só lugar onde o racismo operado pelo capitalismo não se apresente. Ela afirma que todos devem se fazer a pergunta “que racista sou eu?”.
Por outro lado, clínica não é militância nem vice-versa. Como participar desse debate a partir da psicanálise sem nos deixarmos capturar por uma sociologia ou pelo discurso militante — risco do qual não estamos totalmente livres? Esse é o convite que deixo aqui para os colegas que comparecerão ao nosso Encontro Nacional em novembro, em Bonito, MS.
Bibliografia
ASKOFARÉ, Sidi. Psicanálise ou racismo. Conferência proferida na abertura das atividades de 2022 do FCL-RJ.
IZCOVICH, Luis. A identidade: escolha ou destino? São Paulo: Aller Editora, 2022.
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
LACAN, Jacques. O seminário, livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LACAN, Jacques. Televisão. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
QUINET, Antonio. Os outros em Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, edição digital.
RUDA, Hugo D. O colonialismo. Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n. 41-42, jul. 2011/jun. 2012
SOLER, Colette. Rumo à identidade. São Paulo: Aller Editora, 2021. Edição digital. Ética e Psicanálise. Roda de conversa com Isildinha Nogueira e Jairo Carioca, com a participação de Renata Pereira e Robson Mello. Disponível no YouTube.
