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XXVI Encontro Nacional da EPFCL-Brasil

Bonito – MS, de 18 a 21 de novembro de 2026

A CLÍNICA PSICANALÍTICA HOJE: TRANSMISSÃO E ENSINO

A psicanálise nasce da clínica, da escuta do sofrimento das mulheres histéricas. É nesse ponto inaugural que Freud cria a psicanálise como técnica e como ética, lutando, em seu tempo, para sustentar e consolidar seu descobrimento. Seu ato não se limitou a uma inovação terapêutica: ele se inscreveu no real e instaurou um discurso na civilização.

É nesse sulco aberto por Freud que Lacan se inscreve. Ao empreender o seu retorno a Freud a partir dos escritos técnicos, Lacan se nomeia freudiano e, ao mesmo tempo, produz uma série de conceitos decisivos — o objeto a, o gozo, o real, o simbólico e o imaginário, lalíngua, entre outros. Operar a partir dessas ferramentas não foi sem consequências: daí decorrem a criação de sua Escola, o trabalho de cartel e a invenção do dispositivo do passe como formas específicas de transmissão.

Entre esses avanços, a criação do objeto a ocupa um lugar central. Designado por Lacan como seu campo — o campo lacaniano, que dá nome à nossa Escola —, o objeto a produz efeitos diretos na clínica. Trata-se de uma clínica que não se sustenta apenas nas estruturas clínicas, mas que se orienta pelo sintoma como letra e pela maneira singular de cada sujeito enlaçar seu nó, ali onde seu gozo encontra sustentação.

É nessa perspectiva que, numa análise, passa-se da singularidade sustentada nas identificações do sujeito à exceção que cada um carrega em sua relação com o gozo. O passo à letra não prescinde do significante, mas desloca o eixo da questão e coloca, de forma decisiva, um problema de transmissão. Como transmitir esse furo que é, ao mesmo tempo, central e organizador do ser?

Essa questão não se limita à clínica: ela alcança diretamente o ensino. Se a verdade é sempre semi-dita, se o furo no saber é estrutural, como ensinar? Trata-se de uma interrogação que Lacan já formulava desde A psicanálise e seu ensino, ao perguntar: o que a psicanálise nos ensina de verdadeiramente próprio?

Além disso, toda prática se exerce em um tempo histórico determinado. Cada época é marcada por uma doxa. O quê, da doxa freudiana e lacaniana, se mantém hoje? Como as rupturas históricas, as guerras, as questões políticas, econômicas, identitárias e bioéticas, as migrações e as questões de raça incidem sobre o discurso psicanalítico? E, diante disso, o que define um saber-fazer clínico como freudiano e lacaniano na atualidade?

A singularidade da clínica psicanalítica implica, então, que cada psicanalista seja convocado a reinventar a psicanálise. Uma singularidade que tem a ver com a nomeação; por exemplo, quando uma enseada passa a ser chamada de “vidro mole” ou mesmo de “cobra de vidro”, como diria Manoel de Barros, isso tem consequências, pois a nomeação marca um estilo, a partir de um nome próprio. É a isso que convocamos todos: para que, em novembro próximo, na cidade de Bonito-MS, entre rios que correm e contornam o olhar, nesse lugar em que as imagens da natureza fazem borda ao real e onde os peixes proliferam tanto quanto os sintomas, cada um possa se banhar nessas águas da reinvenção da psicanálise e dar testemunho disso.

Comissão Científica:

Alba Abreu Lima (FCL-Aracaju)
Ana Cristina Maués (FCL-Belém)
Andréa Brunetto (FCL-Mato Grosso do Sul) – coordenadora
Consuelo Pereira de Almeida (FCL-Rio de Janeiro)
Patrícia Burgos Leite (FCL-São Paulo)
Raissa Dantas (FCL-Fortaleza)
Rocio Fabiane Teobaldo Arrua (FCL-Mato Grosso do Sul)
Ruben Lemke (FCL-Mato Grosso do Sul)

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