EPFCL - Brasil 

Sede permanente

Rua Goethe, 66 - 2º Andar - Rio de Janeiro

Comissão de Gestão

Diretora: Elizabeth da Rocha Miranda  -  Secretária: Andréa Franco Milagres  

Tesoureira: Geisa Freitas

 

Estratégia, tática e política da Psicanálise

 

Elisabeth da Rocha Miranda

 

Freud (1940[1938]), em o Esboço de Psicanálise, é claro e incisivo ao afirmar que o analista não deve ser modelo para seu analisante, e sim respeitar a individualidade deste, advertindo assim quanto aos limites necessários ao poder da palavra e à incidência da interpretação. Em toda sua obra, Freud fala da política da psicanálise do seu jogo significante, do desejo e do gozo, como podemos observar especialmente no caso do Homem dos Ratos, mas também nos casos clínicos onde são tratadas a resistência, a transferência, a interpretação. A palavra política aparece poucas vezes na obra freudiana, recolho do texto Recordar, Repetir e Elaborar (Freud, 1914) uma delas quando refere a política do avestruz como própria do neurótico, que nada quer saber de seu inconsciente, ou seja, refere-se ao recalque como a política do inconsciente.

 

Lacan (1958), em A direção da cura e os princípios de seu poder, propõe a tese de que “a impotência em sustentar autenticamente uma práxis reduz-se, como é comum na história dos homens, ao exercício de um poder” (1958, p. 592). Se o analista não respeita os limites da transferência e da interpretação, como adverte Freud, resta-lhe o apelo ao poder. A psicanálise, em seu exercício do poder da palavra, exclui radicalmente a teologia moral e a direção da consciência, logo, o analista não deve dirigir o paciente, e sim o tratamento. (idem, p. 592). Para traçar as diretrizes da direção da cura e os princípios de seu poder, Lacan se apoia no livro Da Guerra, de Karl von Clausewicz, autor citado por ele em “Introdução ao comentário de Jean Hypolite” (1954, p. 376), e estabelece a política, a estratégia e a tática do analista.

 

O analista, diz Lacan, “é menos livre em sua estratégia do que em sua tática.... O analista é ainda menos livre naquilo que domina sua estratégia e a tática, ou seja, em sua política” (1958, p. 595-596). Isso porque “a transferência torna-se a segurança do analista, o terreno em que se decide o combate” (1958, p. 602). Sendo a transferência o motor da análise, é também o que a emperra (Freud, 1912). É o manejo da transferência pelo analista, sua estratégia, que propicia a arte da guerra no campo do trabalho do inconsciente.

 

No entanto, o psicanalista, para conduzir a direção da cura, precisa estar submetido à “política da falta-a-ser” (Lacan, 1958). Política da falta-a-ser que se traduz por não ocupar a posição do ideal do eu para o analisante, não ocupar o lugar do grande Outro, aquele que tem e que sabe. Essa seria a posição do analista tirano, justo por ser impotente. Nesse caso, o que vemos é a proliferação do imaginário do paciente. O poder do analista é o da palavra, da interpretação oriunda de sua própria perda enquanto sujeito. Essa é a tática do analista.

 

Mas nem tudo em uma análise se passa no terreno da fala. Se o sintoma é ele mesmo estruturado como linguagem, podemos dizer que ele é uma linguagem cuja fala deve ser liberada (Lacan, 1953), o que não significa que a fala tenha plenos poderes. Posteriormente, Lacan tratou do que está fora do alcance da fala, ou seja, o real que será abordado com o ato analítico e sua política.

 

“O ato psicanalítico é evidentemente o que dá suporte e autoriza a realização da tarefa psicanalítica” (Lacan, 29/11/1967). Definido como a intervenção do analista em uma análise, o ato analítico leva o sujeito a romper a repetição sinthomática, atingindo a estrutura que rege seu inconsciente. Lacan situa o ato analítico como pivô do fazer do analista, e Freud nos ensina que no princípio era o ato, e o ato contém a palavra mágica que toca o real do sintoma.

 

A ética da psicanálise concerne não ao pensamento ou às boas intenções, mas aos atos, e a clínica do ato revela a maneira neurótica sob a qual se apresenta a ética em um sujeito. De tal maneira que o sujeito vai da inibição, da postergação até uma precipitação em atuar, do ato de fazer ao de não fazer, da eterna avaliação dos fundamentos de seus atos com consequente paralisia à atuação no puro registro da pulsão, ou ainda situa-se na vacilação entre a inibição com a procrastinação do ato e a urgência, como demonstra, por exemplo, a clínica da neurose obsessiva.

 

Na passagem ao ato, o sujeito se subtrai da cadeia significante e anula qualquer dialetização possível dos equívocos significantes, sua essência é a certeza. No acting-out o sujeito põe em jogo o real, trazendo para a cena algo que não pode ser dito, como no caso intitulado por Freud de A jovem homossexual. Independente de qualquer interpretação e diferentemente do sintoma, o acting-out diz respeito a um resto que aponta a causa do sujeito. O ato implica o sujeito, entrelaçando o que nele é singular com o que o insere no socius.

 

No divã, metáfora de uma análise, vivenciamos a experiência do que Lacan nomeou como “Há o Um” e ainda “não há relação sexual”. Há o Um, em cada um há o Um, o traço, a marca primeira, a letra que designa as consequências do inconsciente real, este que se apresenta fora da cadeia significante, as consequências de lalíngua sobre os gozos. A impressão digital do falasser é sua forma de gozar. Marca que por ser singular institui a impossibilidade de existirem dois iguais, logo, o diálogo entre um sexo e outro é interdito, como Lacan se referiu em junho de 1972, no O Seminário, Ou pior.... e nem mesmo há um diálogo no interior de cada sexo como ele se refere no texto o Aturdito. O diálogo é, em última instância, a busca de se estar de acordo com o joui-sens, com o sentido gozado do Outro, tarefa impossível. De modo análogo podemos entender o axioma lacaniano “Não há relação sexual” como a impossibilidade de dois fazerem um. Cada um, Há o Um de cada um, goza com sua fantasia com sua marca sempre única. Esse desencontro é o que vemos no divã, é o próprio inconsciente em exercício. É no divã que buscamos os nossos significantes primeiros, nossas marcas, repetições, nossos gozos para que possamos chegar ao savoir y faire com o que nos determina, o sinthoma.

 

Mas não vivemos no divã e sim na Polis e é fato que o falasser é um ser gregário e desde de seu nascimento precisa do Outro e faz laços que se atam e desatam na tentativa de constituir uma civilização. O que chamamos de civilização, com Freud, é para Lacan (1969-70) o conjunto dos quatro discursos como ele os postulou no Seminário 17, O avesso da psicanálise. São eles: o do mestre, o da histérica, o universitário e o discurso do analista. Esses discursos promovem o gozo, é com o significante que o falasser goza, mas também são os discursos que ordenam a forma de gozo, barrando, freando, regulando e impedindo o advento de um gozo sem lei, enfim o discurso civiliza o gozo.  Os laços que fazemos na Polis são regrados pelos discursos que, justo por impedirem o desvario do gozo, causam mal-estar como tão bem Freud ensinou no texto O mal-estar na civilização.

 

Para Freud, o sujeito é situado entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. A coexistência desses dois princípios, que posteriormente Freud denomina libido e pulsão de morte e a qual Lacan acrescenta o conceito de gozo, faz do sujeito o lugar próprio da doença, do mal-estar. O sujeito se constitui através da alienação e da separação do Outro, operações que determinam ou uma perda, uma falta, e a consequência é o sujeito dividido, faltante, ou um sujeito invadido pelo gozo. Não há sujeito sem a dor da perda e sem o sofrimento que essa perda acarreta, como também não há dor sem sujeito, logo, não se pode proteger o sujeito da dor, pois ele é essa dor que o constitui. Mal-estar do sujeito, sua dor de existir que contamina e emperra os laços sociais.

 

No texto Psicologia de grupo e análise do eu, Freud (1921) afirma existir uma junção entre a psicologia individual e a coletiva. Uma não existe sem a outra, o divã não existe sem a Pólis, a libido que investe o corpo próprio é a mesma que investe no outro e no grupo. Freud nos ensina que o laço entre os sujeitos se faz pela libido, ou Eros, mas há uma força que rompe tais laços, força oriunda da pulsão de morte, de Thanatus. Se a única possibilidade do sujeito fazer laço social é a partir do seu próprio inconsciente, quer dizer de suas marcas de gozo, é inevitável que os laços entre as pessoas sejam cheio de pathos. Amor e ódio fazem laços de todos os tipos, mas sempre permeados pelo que, em que cada um, é patológico. É verdade que os grupos se organizam, e acham que tem os mesmos gozos, um certo gozo comunitário diz Lacan no Seminário Ou pior... , mas que pelo advento do real, da impossibilidade existente em cada discurso, se rompem para formar outros grupos.

 

Na Ata de fundação de sua Escola, Lacan (1964) afirma: “que por uma crítica assídua, aí denuncie os desvios e as concessões que amortecem seu progresso, degradando seu emprego”. Esse é o dever da psicanálise no mundo, manter-se atenta ao discurso do capitalista e do mestre que tendem ao Um autoritário e, portanto, incompetente. A política do inconsciente se faz do divã à Polis em um percurso essencialmente político. “O inconsciente é a política” (10/05/1967) donde podemos inferir que a política é a ética da psicanálise, ética do desejo que agencia tanto o divã quanto a Polis com seus enlaces e desenlaces.