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A criança generalizada na clínica e na cidade dos discursos

Que alegria nós, psicanalistas, encontramos naquilo que é nosso trabalho?

Com essa inquietante pergunta, Lacan encerra as Jornadas sobre as psicoses da criança, realizadas por Maud Mannoni sobre o tema Alocução sobre as psicoses da criança (2003 [1967] p.359-368).

Nessa intervenção, ele situa de saída as consequências do progresso da ciência para a época, nomeada como planetária; “a primeira a sentir o novo questionamento de todas as estruturas sociais”, o que implicaria que, a partir de então, seria preciso lidar com a segregação, e isso leva Lacan a perguntar: “como responderemos, nós, os psicanalistas: a segregação trazida à ordem do dia por uma subversão sem precedentes?” Como estarmos engajados nesse campo e, ao mesmo tempo, fora dele?

Ao concluir sua intervenção, Lacan destaca a expressão “criança generalizada” como uma das consequências dos impasses da época, associando-a à “ignorância em que é mantido o corpo pelo sujeito da ciência”. Expressão que recolhe das Antimemórias de Malraux, ao se reportar à confidência escutada de um religioso que revela: “Acabei acreditando, neste declínio de minha vida, que não existe gente grande”, o que Lacan aponta como “a entrada de um mundo inteiro no caminho da segregação” (2003 [1967] p.367).

Como a ética da psicanálise pode nos orientar para nos situarmos nessa condição necessária de extimidade já que estamos imersos em nosso tempo, para atuar na clínica e na cidade dos discursos?

Dispomos da ética implementada por Freud que, por um lado, recoloca o gozo em seu lugar central a partir do princípio do prazer, produzindo seu limite; e, por outro, a subversão, que implica a castração, o ser-para-o-sexo, que não faz relação, que nos retira da ilusão de uma possível completude.

O tema do XXIV Encontro – A criança generalizada na clínica e na cidade dos discursos – é um convite a nos debruçarmos sobre o alcance e os efeitos subjetivos para o ser falante, que sofre as consequências desse projeto universalizante da ciência associada ao sistema econômico vigente, que não faz laço social, mas que, ao contrário, promove segregação, racismos, violência, ódio, alienação, resultados previstos por Lacan desde 1967.

A aposta contínua na psicanálise a cada fato e caso novos, na clínica e nas instituições onde o discurso analítico se faz presente, está vinculada diretamente a sua oferta, que aponta para uma ética que causa o desejo do sujeito e dá lugar às suas palavras e que, mais do que consentir, favorece, promove a afirmação das singularidades, das diferenças. É essa a oferta que se coloca no mundo, desde que Freud a criou, para todos que desejem buscar um caminho distinto daquele que determina o discurso de nossa época, em que presenciamos a tendência homogeneizante nos discursos da política e da ciência numa perspectiva técnico-científica e prescritiva, assim como da pedagogia associada a e a serviço das neurociências, de uma psiquiatria biológica, estigmatizante.

Nesse contexto, não seria justo omitir o lugar da arte que sobrevive e atravessa as frequentes investidas de apagamento dessa expressão humana de criação, porque insiste em se revelar e se mostrar. Arte e sintoma se enlaçam como artefatos na resistência a uma norma opressiva. A psicanálise revela que o sintoma é um modo de gozo que se faz valer, se impõe como incurável, independentemente de qualquer comando ou consentimento. O sintoma, assim como a arte, não se adapta, é rebelde, não se subjuga.

A ilustração escolhida para identificar o XXIV Encontro Nacional, do artista Antônio Obá, intitulada Fata Morgana, dá margem a diversas interpretações. Para o artista plástico Carlos Silva[i], “A obra de Antônio Obá nos empresta aquele empurrãozinho capaz de nos fazer cair e, enquanto caímos, cria-se a experiência. A queda aponta para um convite à vertigem, a uma alteração radical de estado, à exploração de uma ferida aberta que nos leva ao cerne de algumas das nossas dores mais profundas e comuns. Existe, em sua obra, a noção de uma ordem natural imposta, contra a qual é necessário se insurgir”. No texto que comenta a exposição “Revoada”, realizada na Pinacoteca de São Paulo em junho de 2023, podemos observar que para Obá, a infância não é ingênua, “as crianças-personagens do artista são agentes de seu tempo, conscientes e capazes de transformar o mundo”[ii].

Freud pensava que somente alguém que pudesse sondar a mente das crianças, seria capaz de educá-las. Imersos em uma civilização digital, presenciamos, hoje, um grande desconhecimento do que é uma criança, da riqueza e da potência do mundo infantil, verificamos o empobrecimento de sua experiência, a insensibilidade em perceber a importância das pequenas singelezas do brincar, do desenhar, do fantasiar, do experimentar, até mesmo do adoecer, para o ser falante. Este novo lugar ou não lugar da criança vem trazendo consequências significativas não só para a criança, mas também para a constituição do infantil enquanto estrutura, o “traço eliminável de gozo que o sujeito deve ao fato de ser falante” [iii], ou seja, o efeito de linguagem na constituição do falasser, efeito do significante em sua função de produzir furo no real, portanto o infantil entendido como esse furo no real.

A multiplicidade de diagnósticos e a consequente medicalização da sociedade, o que de forma galopante concerne cada vez mais à infância, constituem uma evidência do “projeto” de padronização, uniformização, domesticação, robotização e exclusão de todos os indivíduos, submetidos a uma mesma lógica de produção e consumo, inseridos no discurso capitalista. Esse discurso é apoiado em uma máxima universalizante que se impõe e submete a todos enquanto objeto, mercadoria, cobaia, fetiche, a partir do curto-circuito que estabelece entre sujeito e objeto, o que vem a se configurar como uma clara demonstração da “criança generalizada” enquanto este objeto condensador do gozo do Outro, em nosso tempo, quando o sujeito não responde por seu corpo nem mesmo por seu gozo.

A partir dessa realidade, o discurso analítico está convocado em sua responsabilidade para encontrar formas de dialogar, interrogar os discursos homogeneizantes, abstendo-se de se pautar em qualquer norma, mas visando “nossa doutrina do inconsciente” e considerando a tese de que “a presença do inconsciente, por se situar no lugar do Outro, deve ser buscada, em todo discurso, em sua enunciação” (LACAN, 1998 [1964], p.848).

Se nos orientamos, no Campo Lacaniano, pelo inconsciente estruturado como uma linguagem e pelo campo do gozo e sua ética, nossa aposta caminha na direção de que sempre haverá a oportunidade de insurreição, “já que por direito” a estrutura “faz traço da falta de um cálculo por vir” (LACAN, 2003 [1970], p. 406). A revolução a que se propõe o discurso do analista, revolução de trezentos e sessenta graus a partir do discurso do mestre, é fazer girar os discursos, demonstrando a impotência e a impossibilidade de cada um, para que nenhum deles se fixe, se imponha como laço social e predomine sobre os demais.

Por essa via, o discurso do analista, em sua natureza antissegregacionista, por introduzir, a partir da clínica do caso a caso, a singularidade do desejo, pode promover a responsabilidade pelo gozo de cada um, e para o sujeito criança o acesso a seu desejo a partir da construção de sua fantasia, contrapondo-se, assim, ao discurso da criança generalizada.

A psicanálise, tanto em intensão, na experiência analítica, quanto em extensão, na cidade dos discursos, recolhe os efeitos da “criança generalizada” e da segregação na contemporaneidade. Dessa maneira, o que nos concerne enquanto analistas, diante de uma realidade discursiva tão pregnante e que vai de encontro ao ato analítico e nossa ética, aquela que deveria nos alegrar, em que localizamos a falta, a incompletude, o ser-para-o-sexo em seu bojo como elementos indispensáveis? Caberia um reinventar permanente, perguntar-se constantemente sobre seu fazer, para criar, construir, a cada novo desafio, novas formas de transmissão para que o discurso analítico continue a trazer sua contribuição para cada sujeito e a sociedade?

Ida Freitas

 

[i] BRASÍLIA Memória & invenção. Disponível em: https://brasilia.memoriaeinvencao.com/antonio-oba/. Acesso em: 14 abr. 2024.
[ii] PINACOTECA realiza exposição de Antônio Obá com instalação inédita. São Paulo, Pinacoteca Contemporânea, 24/06/2023 a 18/02/2024. Disponível em: https://www.cultura.sp.gov.br/pinacoteca-realiza-exposicao-de-antonio-oba-com-instalacao-inedita/. Acesso em: 14 abr.2024.
[iii] SAURET, M. J. O infantil e a estrutura. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 1998, p.22

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